sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Ligia e o Cigarro

O problema da minha amiga Ligia é que ela fuma. Ela deve ter outros defeitos que talvez eu nunca vá reparar, mas ela fuma e isso às vezes ferra tudo. Quando nós saímos juntas pelas ruas de São Paulo, em todo canto que se olha tem um placa dizendo que não se pode mais fumar ali, o que eu particularmente acho ótimo, até mudaria os dizeres da placa para “Proibido Fumar Neste Planeta”, mas a Lígia fica atormentadíssima com essas placas e isso faz com que ela tenha ainda mais vontade de fumar. Mas não é sobre a nova lei anti-fumo que eu quero falar.

O que atrapalha a vida da minha amiga Ligia é que no melhor da conversa ela tem que sair correndo, desesperada, porque o corpo dela está pedindo mais nicotina. E então ela some. E deixa lá na mensagem da internet um recado dizendo: “Fui fumar!”. Justo quando eu ia perguntar para ela se eu estou ficando doida por pensar as coisas que eu ando pensando.

Justo quando eu ia reclamar para ela que hoje acordei às seis da manhã ou quando eu ia dizer a ela que ela nunca mais deveria falar com alguém que ache a casa dela muito longe. A casa de ninguém que a gente ama é longe. E alguém que nos ama de verdade não deixa a gente falando sozinho na internet, a não ser que tenha ido, correndo desesperadamente, fumar.

O melhor da minha amiga Ligia é que depois de fumar ela sempre volta correndo e consegue responder a tempo todas as minhas perguntas. E ela sempre ri das idiotices que eu escrevo, como por exemplo, que eu detesto qualquer pessoa que arruma muitas desculpas (esfarrapadas) dizendo que não pode encontrar a minha amiga porque ela mora longe.

A minha amiga Ligia é uma das pessoas mais lindas que eu conheço e ela merece que a única resposta para um chamado dela seja: “Tô indo!”. Porque é isso que ela vai te responder quando você chamá-la, a não ser que ela esteja em algum lugar aberto fumando. E ela vai fumar correndo, vai quase se matar subindo escadas ou empurrando pessoas no elevador para conseguir chegar a tempo de te responder.

A confusão é que enquanto minha amiga Ligia sai para fumar, às vezes dá tempo das pessoas resolverem outras coisas sobre sua vida. Dá tempo, por exemplo, de alguém com quem ela esteja falando conversar com outras mil pessoas, e é ai que a coisa fica ruim para ela.

Porque pessoas que não fumam acabam sendo mais rápidas nas respostas. Elas conseguem nesses minutos em que a Ligia está fumando ter respostas mais afinadas e convenientes.

É uma pena alguém não esperá-la acabar seu cigarro, porque a Ligia é a pessoa mais legal desse mundo. Com aquele ar de Courtney Love dela, com seu batonzinho vermelho ouvindo David Bowie sem parar, não tem como qualquer cara, em sã consciência, não se apaixonar por ela. Eu me apaixonei por ela. Quero falar com ela o tempo todo, mesmo tendo que esperá-la terminar seu cigarro algumas vezes por dia.

E acho que as pessoas deviam ter mais paciência e esperar a Lígia acabar o cigarro dela. Porque enquanto ela fuma, ela pensa nas melhores respostas para qualquer pergunta. Enquanto ela fuma lentamente seu cigarro, junto com o a fumaça fétida que encharca o pulmão dela, ela consegue encher o coração de amor ao mesmo tempo.

É por essa razão que eu aturo o cigarro da Ligia. Por pior que seja o vício dela, ela fica melhor a cada dia.

12/08/2009.

Um comentário:

  1. Amei o texto!
    E já até fiquei com vontade de conhcer a Lígia (:

    Super concordo que a casa de quem amamos não é nada longe.

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