segunda-feira, 11 de junho de 2018

O preço de uma escolha

mastectomia
  1. substantivo feminino
    cir excisão ou remoção total da mama; mamectomia.

É isso o que vai acontecer comigo nos próximos dias. Mastectomia total da mama esquerda, sem reconstrução imediata. Foi isso o que eu ouvi do Dr. Andrade na minha última consulta. Se por um lado começar um tratamento oncológico com uma cirurgia é um bom sinal - de que não há metástase e o tumor ainda está de um tamanho removível e pode ser feito antes de começar a químio. Por outro lado, não é nada fácil ouvir que vão retirar totalmente a sua mama esquerda. Algo que eu nunca imaginei que fosse acontecer comigo. Mais ainda, algo que eu nunca imaginei que pudesse ESCOLHER. Mas foi isso que aconteceu. 

Eu estava torcendo para começar mesmo pela cirurgia. Até então eu sabia que, por pior que fosse, já estarei livre do tumor e para me conformar a reconstrução seria imediata. Mas no dia decisivo para mim, não foi isso que aconteceu. Como sabem estou fazendo o meu tratamento pelo SUS e para uma reconstrução imediata é necessário conciliar as equipes oncológicas com o cirurgião plástico. Mas para fazer isso o tempo de espera, por uma vaga com o cirurgião plástico, seria de até três meses. Um tempo que eu não quero perder e não tenho para esperar. A pergunta do médico foi: "você quer esperar para fazer a reconstrução imediata ou já podemos solicitar a cirurgia para os próximos dias?" Antes de responder minha pergunta óbvia foi: "eu corro algum risco do tumor espalhar se esperar esse tempo todo?" E a resposta dele foi que sim. Então "escolhi" fazer logo a cirurgia. Em seguida ele me explicou que após um ano eu poderei fazer a tal reconstrução.

Dizendo assim parece simples, mas não é. Quando explico para as pessoas  elas me dizem: "ah, mas depois você faz uma plástica e fica tudo bem". Não é bem assim. A diferença é bem grande.  A reconstrução imediata tem um resultado (estético) melhor que fazer isso depois.  Por mais que fique uma cicatriz imensa, existe um volume (que permanece com o extensor) que faz com que a pessoa ao menos se iluda que continua inteira. 

Eu sempre tive seios lindos. Talvez seja a parte do meu corpo que eu mais gosto. Me orgulhava de, aos 46 anos, ainda conservá-los firmes, sem estrias ou flacidez. Ficava feliz de me olhar no espelho e vê-los simétricos, uniformes e muitas vezes mais belos do que os de algumas adolescentes que já tinha visto.

Ficava realmente feliz de ter passado por duas gravidez e ter conseguido mantê-los bem conservados. A ficha só caiu ontem no banho. Enquanto me lavava me dei conta de que daqui alguns dias a minha realidade será completamente diferente. Fiquei me lembrando de quando eles começaram a nascer: eu tinha doze anos. Me lembrei do meu primeiro sutiã e de todas as vezes que eu me senti sexy e bonita por causa dos meus seios. Do quanto eles elevavam a minha autoestima, mesmo quando não estava completamente satisfeita com o meu corpo. Então eu comecei a pensar nas escolhas todas que eu fiz e que me trouxeram até aqui.

Dentro em breve, quando me olhar no espelho - por pelo menos um ano inteiro - será assim, como na foto ao lado, que vou me ver. Por mais que eu tenha escolhido fazer logo a cirurgia, na verdade essa foi a única "escolha" que eu tinha. Ou eu aceito tirarem um pedaço de mim ou posso complicar a minha situação -e isso implica em me curar ou não do câncer. Então, escolher viver, não foi nenhuma escolha, mas a única alternativa que eu tinha.

O que eu poderia ter escolhido antes era ter cuidado melhor de mim. Ter feito talvez aquele plano de saúde que eu não fiz porque achava caro demais e um desperdício - já que eu poderia fazer uma medicina preventiva pelo SUS. A verdade é que eu sempre me deixei meio que em segundo plano em quase tudo na vida. Deixei de gastar um dinheiro comigo que agora poderia ter poupado o meu seio esquerdo - já que pelo plano de saúde essa reconstrução seria imediata. Essa foi uma escolha que eu deveria ter feito e não fiz.

Eu poderia ter pesquisado melhor sobre mamografia e ultrassom. Ter descoberto, em tempo, que alguns nódulos não aparecem na mamografia e ter feito o ultrassom sempre (e não apenas a mamografia que fazia pelo SUS todo ano). Se eu soubesse, teria pago anualmente por um ultrassom e teria descoberto o nódulo em tempo de não precisar remover a mama inteira. Enfim, pensamentos que agora não me ajudarão em nada. 

Serão 365 dias, ao menos, de espera por um resultado que talvez não seja tão bom quanto se fizesse a reconstrução imediata, mas é o preço que vou pagar para ficar viva e me curar. Então não é um preço tão alto, visto dessa forma.

Quando digo que ninguém "tira um câncer de letra", é disso que estou falando. Nenhuma mulher no mundo faria uma escolha dessas, a não ser que não tenha mais escolha nenhuma. É o que me convenço quando alguém me diz que "vai ficar tudo bem" e eu sei que não vai ficar tudo tão bem assim. 


Quando a Angelina Jolie decidiu fazer uma mastectomia bilateral preventiva, muita gente a criticou - sem saber as razões dela. Pelo que li ela tinha muitos casos de câncer na família e fez um exame genético, o BRC, e deu positivo para hereditariedade. Para ela era uma questão de tempo desenvolver um câncer de mama. Então ela escolheu, em tempo, retirar as mamas - preservando mamilos e reconstruir imediatamente. Ela escolheu viver e permanecer "inteira". É uma escolha que a maioria das mulheres teriam feito se pudessem. Eu inclusive. Se eu imaginasse que em quatro anos seria diagnosticada com um câncer de mama, teria retirado tudo quando me operei em 2014 e retirei duas mamas acessórias axilares. Eu tinha quatro, em vez de duas, glândulas mamárias. E a voz do meu médico dizendo que era melhor tirá-las para evitar "problemas futuros" ainda ecoa na minha lembrança. Ah! Se eu soubesse, teria escolhido tirar tudo, como fez a Jolie.

Ainda tenho um pedaço bem difícil pela frente, mas no final das contas a alma estará ilesa. Assim espero. O que quero dizer a vocês hoje é: PREVINAM-SE!
SE TOQUEM! (câncer de mama não dá só em outubro).
FAÇAM EXAMES PERIÓDICOS (mamografia e ultrassom, sempre)

E além disso:

Orem por mim,
Torçam por mim,
Vibrem por mim.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

A vida me sorriu!




felicidade
substantivo feminino
  1. 1.
    qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar.
  2. 2.
    boa fortuna; sorte.



Depois de dias de tanta angústia, medo e preocupação, a vida me sorriu. Agora posso respirar de novo em paz. Hoje peguei o resultado de todos os exames e, graças à Deus, o tumor está só localizado mesmo. Não há nenhuma alteração dos linfonodos ou sinais de metástases. A cirurgia já foi liberada por toda a equipe médica: cardio, anestesista e mastologista. Agora é só aguardar a liberação, que deve acontecer nos próximos dias, para fazer a cirurgia.

Para mim a pior parte - que era não saber a gravidade da doença - passou e quando a médica disse que estava tudo certo com os meus exames, foi como se tivessem tirado um peso imenso dos meus ombros. Em seguida ela me passou toda a papelada e as guias de autorização da cirurgia. A minha felicidade era tanta naquele momento que nem pensei no fato de que, dentro de alguns dias, vou perder completamente meu seio esquerdo. Estar livre da doença é a única coisa que me importa agora. Depois a gente refaz tudo o que precisar refazer. Receber a notícia de que você pode recuperar completamente a sua saúde, é algo que simplesmente não tem preço. E a gente só se dá conta disso quando se vê numa situação de escolha como essa. E hoje eu escolho ter saúde e ser feliz novamente.

Eu sei que tenho ainda muita coisa pela frente: uma cirurgia emocionalmente complicada - uma mastectomia radical da mama esquerda -, sessões de quimio e, talvez, radioterapias e um tratamento hormonal por longo período, mas para mim o pior de tudo realmente acabou hoje. O mais difícil pra mim sempre foi a parte do estadiamento - fazer e esperar todos os muitos exames que iriam me dizer a gravidade da minha doença. E isso acabou hoje! Agora eu sei a cara que esse monstro tem e tudo que vou precisar fazer para enfrentá-lo. E sei também que posso dar conta dele. Saber que o tumor é local, que não há sinais de comprometimento de outros órgãos ou partes do corpo é algo simplesmente maravilhoso, numa situação como essa. Saber que eu posso me curar completamente me dá uma força e coragem inexplicáveis. Agora eu realmente sei que posso vencer essa luta. E vou fazer tudo o que puder para que isso aconteça da melhor forma. 

A tortura acabou, as nuvens negras se dissiparam e a deprê perdeu de vez o lugar na minha vida. Estou arregaçando as mangas para enfrentar o que vier, me concentrar no tratamento e na minha cura. Logo logo estarei completamente saudável de novo. Estar livre desses sentimentos de medo e preocupação muda tudo pra mim. Nem tenho palavras para descrever a libertação que estou sentindo.

Obrigada, obrigada, obrigada! 
Obrigada de todo coração à todos que estão torcendo, orando e vibrando por mim.



domingo, 3 de junho de 2018

Um Isolamento chamado Câncer!

Quem já recebeu, em algum momento da sua vida, um diagnóstico de câncer vai entender melhor essa postagem. Quando você abre seu coração e expõe o que está vivendo as pessoas virão, solidárias, demonstrar o seu apoio e isso, sem sombra de dúvidas, faz um bem enorme.

Mas, depois de algum tempo a gente vai se dando conta do quanto essa jornada será longa e solitária. Ainda que receba o carinho das pessoas, o fato é que você terá de enfrentar os piores momentos sozinha.

Por mais que o seu marido esteja lá, na antessala, de mãos dadas com você, quando chamam o seu nome para algum exame, você precisa soltar a mão dele e entrar (e enfrentar) tudo sozinha. Mesmo que esteja recebendo amor e cuidados muitas vezes aquilo que você está sentindo nem tem como ser compartilhado. E ainda nem estou falando daquelas pessoas que simplesmente pararam de te procurar e sumiram. Porque a verdade é que quase ninguém entende de verdade o que você está passando. Poucos sabem o que é estar com câncer. A não ser que esteja passando ou já tenha passado pela mesma situação.

Mesmo que você tenha boa vontade de explicar todo o processo e por mais boa vontade que as pessoas tenham em tentar entender, as coisas simplesmente não têm como ser avaliadas por quem está de fora. É muito difícil para as pessoas, mesmo aquelas que realmente se preocupam com você, acompanhar a avalanche emocional de um paciente oncológico. Há pessoas que sequer conseguem falar a palavra câncer. A falta de conhecimento sobre o assunto e todo o estigma de morte que envolve a doença ainda é muito forte. Algumas pessoas simplesmente não conseguem lidar com isso. Não se sentem confortáveis e se afastam. Algumas sequer falam com você após o diagnóstico e então você vai se sentindo cada vez mais sozinha.

Ainda que você tente entender a dificuldade que algumas pessoas têm, perceber que algo mudou te deixa muito triste. Saber que pessoas que falavam sempre com você, e até mesmo familiares, se afastam é mais uma coisa difícil que a gente precisa aprender a lidar. Quando se trata de um familiar próximo a situação é ainda mais complicada. É preciso criar uma força sobrenatural para conseguir se manter forte e não cair na depressão. Isso talvez machuque mais que a doença. A maioria das pessoas não está preparada para lidar com alguém diagnosticado com câncer. 

Tem dias que você vai estar forte, decidida e confiante na sua cura, já em outros vai estar pensando um monte de bobagens. Vai estar morrendo de medo e precisando muito de um colo, que nem sempre terá. O afastamento de pessoas queridas dói demais. Saber que você não vai poder contar com pessoas - que você tinha certeza que estariam ali com você - é algo bem difícil de lidar. Pra quem vive numa cidade grande, feito eu, longe da família e da maior parte dos amigos, é um desafio e tanto se manter motivada. Na maior parte do tempo somos eu, o Tomás e, nos finais de semana fico mais tempo com, o Diego. Vejo poucos amigos. E eu sei que todo o tratamento irá impor um isolamento ainda maior. Isso tem me preocupado muito, pois é um momento de muita fragilidade emocional (e estamos falando de uma pessoa que já era bastante instável antes do diagnóstico).

Hoje li uma matéria que fala justamente sobre isso. Que a solidão e o isolamento podem contribuir para recidiva e aumenta em até 60% as mortes por câncer de mama. Isso me deixou apavorada. No fim de semana já fiquei bem triste por ter sido convidada, "pero no mucho", para uma diversão. Eu tinha colocado muita expectativa de sair, me divertir e esquecer um pouco os problemas, mas no fim não deu nada certo e fui dormir chorando por ter sido "esquecida". Eu nem comecei ainda o meu tratamento e já sinto às vezes esse tal isolamento.

É claro que tem pessoas que estão ali prô que der e vier, como a minha mais-que-irmã Cris, que na sexta fez, aliás o Kauê, marido dela fez, um almoço delicioso e tivemos um dia super agradável. Eu seria extremamente injusta se não dissesse que tenho pessoas incríveis ao meu lado, mas o fato é que algumas coisas andam pesando bastante. Eu preciso me conectar com o mundo e fazer todas as mudanças que eu quero na minha vida. E eu quero trabalhar, quero ficar mais tempo com o Diego, quero sair e me divertir, quero fazer mais as coisas que eu gosto e estar mais perto das pessoas que realmente se importam comigo.

Essa coisa de não pertencer mais ao "mundo das pessoas saudáveis" é complicado. Você se olha no espelho e não há nada de errado com você, mas olha os seus exames e tem um monstro terrível no teu caminho - um monstro grande e feio que você vai ter que enfrentar sozinha. E vai ter que lidar com uma porção de comentários infelizes, talvez ingênuos,  e muitas vezes fingir que não entendeu. Vai ter que explicar um monte de vezes a mesma coisa (às vezes pra mesma pessoa) e ainda ter que estar sempre bem pra não espantar ainda mais as pessoas. Muitas vezes você mesmo vai se isolar por saber que não será uma boa companhia. 

Uma das coisas que já descobri é que "ninguém no mundo tira um câncer de letra!". Ninguém! Se alguém disse isso não deve ser verdade. Não dá para passar por isso tudo na boa o tempo todo. Por mais forte e determinada que você seja, tem dias que vai estar no chão e na maioria das vezes não vai ter ninguém lá pra te ajudar (e, a bem da verdade, você nem vai querer ninguém lá te juntando do chão).

Por mais que tenha um monte de gente a sua volta, você nem sempre vai se sentir parte. E nem sempre vão saber te dizer a coisa certa. Então você se fecha. É por isso que o sentimento de solidão é muito grande nesse momento. Escrever aqui no blog tem me ajudado a lidar um pouco com isso. Dividir o que estou passando, minhas dores e descobertas, alivia um pouco a pressão emocional. Espero, em breve, conhecer mais pessoas, aqui no blog ou lá no IBCC, porque eu sei que estar com pessoas que estão passando pela mesma situação vai me devolver o sentimento de pertencimento.

No fim das contas eu sei que tudo vai melhorar muito depois que eu fizer a cirurgia e saber que esse câncer não está mais aqui dentro de mim. Por enquanto ainda é muito complicado passar a mão no seio e sentir esse caroço fazendo parte do meu corpo. Saber que ali estão crescendo (mesmo que lentamente) células que podem te matar é algo assustador. Ir dormir e acordar sabendo que há algo ali, palpável, dentro de você que está te destruindo não é uma coisa fácil de lidar.

Eu não queria que essa postagem tivesse esse ar deprê. Queria ter falado isso tudo de outra forma, mas hoje, talvez por conta dos hormônios (sempre eles) não estou lá muito "u-hulll", Mas amanhã, depois de descansada, acordarei mais confiante que a situação vai ser facilmente resolvida e que depois do tratamento todo eu vou poder esquecer que tive essa pelota estranha, um dia, crescendo dentro de mim.

Quer saber mais? (clique nos links):

Vamos lá!
Orem por mim!
Vibrem por mim!
Torçam por mim!
Me convide pra um café!

Beijo Todos!













quinta-feira, 24 de maio de 2018

Gratidão

gratidão
substantivo feminino 
1.qualidade de quem é grato.
2.reconhecimento de uma pessoa por alguém que lhe prestou um benefício, um auxílio, um favor etc.; agradecimento.
3.Em um sentido mais amplo, pode ser explicada também como recognição abrangente pelas situações e dádivas que a vida lhe proporcionou e ainda proporciona.
Sempre ouvi que "depois da tempestade sempre vinha o tempo de bonanças". O que eu nunca havia imaginado é que poderia viver a bonança bem no meio da tempestade. A vida, às vezes, te coloca de frente a circunstâncias que você jamais cogitou um dia viver. Hoje foi um desses dias: o pior e o melhor.

Como vocês sabem estou há quase um mês realizando exames e mais exames para saber o estadiamento do nódulo cancerígeno que se alojou no meu seio esquerdo. Nesse ínterim fiz  tomografia - do pescoço até a pelve-, mamografias, ultrassons, biópsias, imuno-histoqúimica e um exame chamado cintilografia óssea. Tudo isso para definir o tipo do tumor, qual o receptivo e o que poderá curá-lo, se havia ou não outros tumores e o mais angustiante de todos: se o tumor primário havia ou não se espalhado. Foram dias e dias de intensa angústia e espera. 

Hoje passei mais um dia no IBCC. Peguei os exames que faltavam e passei na análise e pré-operatório. Enquanto esperava o médico me chamar, não me contive e abri os exames. Primeiro li a contra prova da biópsia original, que confirmava as informações e características observadas no laboratório anterior. Até ai tudo bem, nada de novo! Quando comecei a ler a imuno-histoquímica (sem entender absolutamente nada) começou o meu sofrimento. Quanto mais eu lia a palavra "positivo" mais eu me desesperava. Positivo para estrógenos, positivo para progesterona, HER2, etc... comecei a chorar. Na minha cabeça tinha que estar tudo negativo e não estava. 

Resolvi então abrir a cintilografia óssea e antes de terminar de ler o laudo já estava em prantos. Totalmente ignorante sobre o conteúdo do laudo que estava lendo: "...alta concentração de rádio-farmáco (contraste) apontam lesões ósseas nos ombros, clavículas, coluna e pelve...". Desesperada, imaginei o pior quadro possível e comecei a chorar compulsivamente. Só pensava naquelas lesões todas espalhadas pelo meu corpo e pensava: "o que eu vou fazer agora? Como vou me livrar disso tudo? Como eu fui fazer isso comigo? Vou deixar o meu filho tão pequeno sem mãe?". O desespero tomou conta de mim completamente e chorei, sem o menor constrangimento, na frente de dezenas de pessoas, como nunca havia chorado em toda minha vida. No meio dessa situação a médica da equipe me chamou.

Já entrei no consultório dizendo: "Dra. eu abri todos os exames, já li tudo, está tudo espalhado por todo meu esqueleto!". E ela calmamente me falou: "Você não devia ter aberto os exames. Eu vou analisá-los todos e depois vou te explicar tudo. Mas é bom que você saiba que nem tudo o que parece é o que você possa estar imaginando. Enquanto ela analisava os exames eu olhava as fotos do meu pequeno e chorava desesperadamente. Até que ela terminou de ler os exames e me falou: "Eu olhei os seus exames e em lugar nenhum se sugere que há metástases nos seus exames.". Nesse momento eu me senti igual aquelas crianças que choram compulsivamente e do nada simplesmente param de chorar e começam a ouvir. Só consegui dizer a ela: "você, jura?".

E a médica continuou: Olha, o que aparece aqui na cintilografia são "LESÕES DEGENERATIVAS OSSEAS", que podem ser causadas por envelhecimento ou traumas. Se fossem suspeitas de metástases estaria escrito: "sugestivo de LESÕES POR TUMOR SECUNDÁRIO!" Dai ela me mostrou os outros exames e disse: "não há nada nos órgãos, os linfonodos não estão alterados em nenhuma parte do seu corpo (se o tumor tivesse espalhado seria o primeiro indício).  Em seguida ela disse que ia chamar o Dr. Andrade (responsável pela equipe) e juntos iriam olhar todas as imagens dos meus exames e analisá-las junto com a médica que fez o laudo e em seguida me dariam um diagnóstico.

Minutos depois eles retornaram, avaliaram minunciosamente o nódulo, os linfonodos das axilas e então o Dr. Andrade me disse: "olha suas lesões são causadas por envelhecimento, são lesões compatíveis com a sua idade.". Eu já vou encaminhá-la pra os exames pré operatórios, mas vou pedir uma nova tomografia ampliada da pelve, apenas para confirmar o meu diagnóstico (por excesso de zêlo apenas e para você se sentir mais confiante), mas já posso te adiantar que o protocolo provável será o seguinte: cirurgia - mastectomia total da mama esquerda, porque o nódulo está bem no meio, atrás do mamilo na junção dos quadrantes da mama e por precaução vamos retirar todo o tecido e fazer a reconstrução imediata da mama. Vamos retirar um linfonodo, que será analisado por biópsia na hora e se não houver células cancerígenas nesse linfonodo terminamos a cirurgia aqui. Depois serão as sessões de quimio e rádio e depois o tratamento com hormônios. E então me passaram todos os exames pré-operatórios que tenho que fazer para a próxima etapa.

Hoje mesmo já comecei a fazer os exames. Amanhã faço mais dois e na outra semana o restante dos exames e consultas com o cardiologista e anestesista. No dia 07/06 retorno com todos os exames para agendar a cirurgia ou, na pior das hipóteses, reavaliar o protocolo.

Foi nesse instante, que chamei de "alívio imediato", que comecei a agradecer. Mais que isso, comecei a compreender verdadeiramente o que é se sentir grato. O que é ter verdadeira GRATIDÃO, por absolutamente tudo: pela vida, pelos meus filhos e marido, pela equipe médica, pelos amigos que estão me apoiando. Então, me peguei agradecendo até mesmo o improvável. Eu estava ali agradecendo pelas minhas lesões degenerativas ósseas não serem lesões de tumor secundário. Naquele instante eu agradeci de alma e coração por ter lesões degenerativas. Agradeci pelas dores nas costas e ombros serem dores de envelhecimento. Eu agradeci por estar envelhecendo e não morrendo. Agradeci com todo meu ser por tudo e todos. Absolutamente todos que eu conheço e que, de alguma forma, estão pensando em mim nesses últimos dias. Agradeci à Deus, ao Universo, à vida, às orações, as vibrações, as torcidas, as palavras de conhecidos e desconhecidos que chegaram até a mim em algum momento e disseram: "você vai conseguir!".

Ainda falta muito, muito mesmo para a minha jornada terminar. Na verdade o tratamento sequer começou pra valer ainda, mas eu já consegui estar completamente agradecida. Agradeci pelo tumor ser positivo para os hormônios, agradeci pelo HER2 (com 2 positivos) não ser um triplo negativo (assim que descobri que o negativo seria pior porque o tumor não responderia aos hormônios que vão me curar). Eu nunca, em toda minha existência, nem por um segundo, imaginei que um dia agradeceria por estar com um carcinoma ductal invasivo grau histológico I e HER2. Mas eu agradeci a isso hoje. E agradeci a tudo quanto consegui me lembrar que eram coisas boas que eu tenho na minha vida. Agradeci até mesmo o fato de que vou perder completamente o meu seio esquerdo e ficarei por um ano inteiro com um extensor dentro de mim. Mais que isso: eu agradeci por tudo que vou passar. Agradeci as sessões que quimio que farei, os cabelos que perderei, as radioterapias que irão queimar profundamente a minha carne. agradeci aos hormônios que vou tomar, por pelo menos 5 anos, e agradeci profundamente pela possibilidade de, no final desses 5 anos, eu poder ouvir: "você está curada!"

Essa foi uma das lições que aprendi hoje: SER VERDADEIRAMENTE GRATA!
Não que eu fosse ingrata, nunca achei que sou ingrata, mas hoje eu descobri o que é ser grata até pelas coisas mais complicadas e difíceis que já tive que enfrentar na vida. E a maior gratidão de todas que eu estou sentindo nesse momento é por não estar mais desesperada de medo de deixar os meus filhos e o meu marido. Por ter conquistado de volta a esperança, a fé e a confiança de que eu realmente vou sair dessa situação.

Hoje não vou pedir que continuem orando, vibrando ou torcendo por mim. 
Hoje eu digo a vocês:

OBRIGADA por orarem por mim!
OBRIGADA por vibrarem por mim!
OBRIGADA por torcerem por mim!
OBRIGADA por vocês existirem.



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Descansar é Preciso!

estresse
substantivo masculino 
O estresse é uma resposta do organismo (física ou mental) a um evento de esforço extremo ou importante, geralmente quando se sente ameaçado ou sob pressão. Essa resposta libera uma série de reações químicas no seu organismo, o que provoca reações fisiológicas.

O estresse, apesar de não ser o causador de problemas graves, desencadeia alguns destes problemas, pois quando a redução do sistema imunológico do organismo afeta um indivíduo mais vulnerável, sintomas podem surgir, como: sensação de desgaste constante; alteração do sono; tensão muscular; formigamento; mudança de apetite; alteração de humor; falta de interesse pelas coisas; problemas de concentração, atenção e memória; pensamentos acelerados; preocupações excessivas e constantes; dores; problemas intestinais; náuseas e tonturas; dor no peito; perda da libido; necessidade de subterfúgios para conseguir relaxar; hábitos nervosos (como roer unhas); entre outros... O estresse também pode desencadear algumas doenças, como: problemas de pele; cardíacos; gastro-intestinais; hipertensão; ansiedade; depressão; resfriados frequentes; alergias; enxaquecas; queda de cabelo; infecções; úlceras; infarto; derrame; vitiligo; psoríase; herpes; crises de pânico; entre outras.
Dito isso, vamos lá!
Eu passei boa parte da minha vida muito estressada. E ainda hoje convivo com estresse diário. Desde muito novinha sempre tive muitas responsabilidades e afazeres. Aos 16 anos já morava sozinha e tinha que trabalhar para comer e me sustentar. Casei muito cedo e aos 20 anos fui mãe pela primeira vez. Além de mim, passei a ter mais uma grande responsabilidade. 

As pessoas me diziam que eu tinha sido mãe muito jovem e eu pensava: "Cuidar de um bebê não é esse bicho de sete cabeças, afinal já cuido de crianças desde os 13 anos.". Eu estava certa, em partes. Realmente cuidar de um bebê não é o fim do mundo. Mesmo muito nova tomei conta da minha filha praticamente sozinha. Dei banho e cuidei do umbigo, fraldas, amamentação, doenças e todo aprendizado dela desde a maternidade. E adorava fazer isso. Eu só me dei conta de que as pessoas estavam certas quando minha filha entrou na adolescência. Eu não tinha a menor maturidade para lidar com uma adolescente. Eu tinha 33 anos e o mundo desabou na minha cabeça. 

Além de toda responsabilidade que eu tinha na vida: me manter e manter a minha filha, manter uma casa, um trabalho, minhas crises emocionais, tive que lidar com vários problemas que não estava nenhum pouco preparada para enfrentar. Resultado? Primeira crise de pânico aos 34 anos. Foi então que descobri que tinha transtorno de ansiedade. Do qual eu passei quase dez anos negando. Tive crises em 2005 que me levaram por três vezes ao pronto socorro. Em 2007 meu avô faleceu eu literalmente desabei. Passei a ter constantes crises de ansiedade que eu achava que poderia controlar. Pensava: "se é coisa da minha cabeça, se eu criei isso, eu vou resolver sozinha". Comecei a ler sobre o assunto e achei que conseguiria me cuidar sozinha.

Deu certo por algum tempo. Em 2008 estava com 67 kg. Decidi emagrecer (sempre que decido isso as coisas melhoram). Comecei a fazer caminhadas diárias, reeducação alimentar, fui ao endócrino e comecei a cuidar de mim. A coisa começou a andar bem. Enquanto estava fazendo exercícios e me alimentando bem não tive mais crises. Pensei: "me curei! Estou ótima!". E estava bem mesmo. Comecei a fazer o curso que eu queria na FEESP, depois fiz pós graduação e um curso de comunicação escrita na FAAP e a coisa realmente parecia caminhar. Em 2009 me casei novamente e eu não podia estar mais feliz.

Felicidade faz a gente desencanar das coisas. Fui ficando feliz e comendo cada vez mais. Muito aconchego no lar, vinhos e queijos, guloseimas e filminhos... Em 2010 eu já tinha bagunçado tudo de novo. Engordei, comecei a comer, de novo, um monte de porcarias e parei de vez de correr no parque. Só queria ficar em casa curtindo o meu casamento e minha vidinha que tava tão boa. Poderia ter feito isso, sim claro, mas sem me descuidar da saúde. Em 2011 publiquei o meu livro e quando vi as fotos do lançamento fiquei chocada com o tamanho que eu estava. Resolvi fazer um check up: meu colesterol tava alta, glicemia limitrofe e eu quase morrendo para subir as escadas. Em novembro de 2011 eu reagi. Junto com uma amiga querida, a Renata, montei um blog e com os incentivos em apenas 4 meses eu tinha perdido 10 kgs, já estava correndo 6 km 4 vezes por semana. Em março de 2012, nós corremos juntas 5 km na maratona de São Paulo. Os exames todos voltaram a ser maravilhosos e eu subia as escadas correndo na boa.

Em agosto de 2012 engravidei. Consegui manter um peso excelente na gravidez, aumentei apenas 7 kgs e cuidei muito bem da minha alimentação. Passei a gravidez toda com a pressão arterial ótima, sem ter maiores problemas, além dos habituais, numa gravidez. Tomás nasceu super saudável em abril de 2013. A grávida que caminhou até o oitavo mês, que cuidou tanto da alimentação e da glicemia. Virou uma mãe sem tempo pra mais nada. O bebê mamava de hora em hora e para compensar a falta de sono comecei a comer compulsivamente. Em poucos meses engordei tudo o que controlei na gravidez e mais um pouco. A minha vida, que já tinha muitos afazeres e responsabilidades virou uma loucura.

Diego e eu somos sozinhos, sem familiares, aqui em São Paulo. Então ele trabalha o dia todo (numa jornada de 10h) pra nos sustentar e o restante da carga diária é por minha conta. Além disso, eu nunca, em tempo algum, deixei de abraçar um trabalho com afinco. Eu literalmente abracei o mundo, o meu mundo. Centralizando tudo, fazendo tudo sozinha, achando que dava conta de tudo. Tomás estava com apenas 20 dias de nascido e eu com uma cesárea cicatrizando, eu pegava ele + carrinho + compras e descia e subia três lances de escadas. Ia ao mercado e carregava aquele todo sozinha escada acima. Lavava, passava, cozinhava, cuidava da casa, do filho, do marido e comia. Eu sempre tive problemas para dormir, mas eles se agravaram bastante nos últimos 5 anos. Há três anos, finalmente procurei ajuda psicológica, mas os problemas emocionais eram tantos que ainda não recebi alta.

Tinha dias que estava exausta, mas quando o Tomás dizia: "me leva no Ibira?". Eu pegava ele + bicicleta + uma sacola cheia de coisas e ia (escada abaixo e depois escada acima) com ele. Tivemos tardes incríveis, das quais jamais me arrependerei. Se há um arrependimento é de não ter passado mais tempo com ele no parque, em vez de ter trabalhando tanto limpando casa. Perfeccionista pensava: "minha casa tem que estar perfeita, roupa passada, faxina feita, filho alimentado e limpo, móveis lustrados, paredes pintadas (sim quando não tinha dinheiro eu mesma ia lá -  me achando a mulher maravilha - e lixava, pintava, arrumava, pregava varal, consertava porta...)". Fingia não ver o meu cansaço. Mesmo morrendo de sono ou muitas vezes de dor nas costas, eu levantava e ia lá estender a roupa, levar o lixo, lavar a louça, fazer um monte de comida. Eu estava exausta e não percebia. 

O resultado disso, todo mundo que me acompanha aqui sabe: eu fiquei gravemente doente. E mesmo diagnosticada com câncer eu não parei. Levo e busco filho na escola, lavo, passo, cozinho, faxino, limpo, vou ao mercado, subo compras pesadérrimas escada acima e há dez dias (pasmem!) lavei com cândida e pintei o teto da cozinha e do banheiro porque estavam manchados de infiltração. Em todo lugar que falava sobre paciente oncológico eu lia: "precisa descansar, relaxar, procurar algo prazeroso para fazer afim de passar mais leve por esse período de tratamento". E eu lá triplicando a minha rotina, pois além de tudo o que já fazia antes passei a correr atrás de: exames no hospital, alimentação saudável, terapias, assistências... Até ontem não tinha tido um dia de descanso, pra deitar nem que fosse uns minutinhos pela tarde e me refazer. Então as dores começaram aparecer.

Toda noite tenho tido dores pelo corpo. E a cabeça começou a criar monstros: deve ser metástase nos ossos, deve ser isso, deve ser aquilo. Até que ontem, na palestra da assistência, uma senhora (médica) falou comigo: "Olha muitas vezes essas lesões ósseas que aparecem na tomografia não tem absolutamente nada a ver com o tumor. Geralmente são lesões por traumas. Você carrega muito peso?". PLIN!!! Toda minha vida de exageros passou pela minha frente. Então ela me disse: "você está sobrecarregada! Física, emocional e mentalmente. Excesso de informações, excesso de trabalho, de preocupações... não admiro ter ficado doente.". E continuou: "essas dores que você sente são dores de exaustão, seu organismo não está mais dando conta disso tudo. Você precisa parar, se quiser se curar e se recuperar.".

Parar de pesquisar coisas que não vou entender sozinha, parar de querer resolver tudo imediatamente, parar de querer tudo perfeito, parar de não me dar um tempo, parar de não cuidar de mim... A minha terapeuta recentemente me disse: "acho que você não gosta de você.". E eu fiquei muito brava com isso: "claro que eu gosto, claro que eu me amo!". Hoje eu entendo o que ela quis dizer e tristemente reconheço: eu não estou me amando. Ao menos nunca demonstrei isso. Nunca me coloquei em primeiro lugar, nunca exigi um descanso pra mim mesma, nunca me rebelei, nunca apelei, nunca me permiti ser egoísta. Sempre e sempre vieram antes de mim todos a quem eu amo.

Eu precisei ser diagnosticada com um câncer, do qual eu ainda nem sei a gravidade, para finalmente ouvir o meu corpo gritando por socorro. Precisei ver duas lesões ósseas, silenciosas, na minha tomografia, para entender que eu não devia ter carregado tanto peso e tanto mundo na minha pobre coluna. Eu preciso parar, senão a vida vai me parar muito antes do tempo.

Eu não sei ainda como eu vou fazer. Não tenho dinheiro para pagar uma ajuda, por mais simples que seja. Não temos pessoas que possam aliviar um pouco a nossa carga. Diego precisa trabalhar para nos manter, nós precisamos comer, nos vestir e o Tomás de muitos cuidados. Daqui a pouco mesmo já tenho que sair correndo, à pé porque hoje é rodízio, para buscá-lo na escola, comprar coisas urgentes, voltar correndo, dar banho, fazer janta, arrumar tudo e eu estou exausta agora. Hoje consegui deitar por 20 minutos antes da minha terapia, mas nem consegui descansar, pois a cabeça estava a mil. Voltei da terapia e resolvi escrever aqui um pouco. Minhas costas já começaram a doer.

Hoje tive uma conversa muito esclarecedora com a minha amiga Cris. Eu preciso mudar meus hábitos urgentemente. Eu preciso me dar tempo, preciso ouvir meu corpo, preciso cuidar de mim antes de cuidar de outras pessoas. Se você não estiver bem não vai poder fazer isso de qualquer forma. Até numa despressurização no avião, eles te dizem: "Coloque a SUA máscara de oxigênio, DEPOIS ajude a pessoa ao seu lado!".

E o corpo da gente dá muitos sinais, como vocês têm visto nas minhas postagens. Eu tive pedras no rim, por não tomar água, tive crises de pânico e de ansiedade por estresse crônico e outras infinidades de pedidos de socorro do meu corpo. Eu não dei ouvidos aos chamados do meu corpo e agora estou pagando o preço disso.

Essa agora será uma das maiores prioridades na minha vida: eu vou cuidar de mim, parar de me exigir tanto e me dar ao luxo de deitar e descansar antes que seja tarde demais para mim. E você, que está me acompanhando, não precisa passar por nada disso. PARE! DESCANSE! SE PERMITA RELAXAR!

Eu vou colocar a minha "máscara de oxigênio" antes de ajudar alguém ao meu lado e você, por favor, faça isso também.

Falem comigo!
Orem por mim!
Torçam por mim!

Um beijo carinhoso.





terça-feira, 15 de maio de 2018

Enfrentando o medo

Hoje passei o dia no IBCC para fazer um exame chamado cintilografia óssea. É o exame que vai me dizer se tenho ou não algum tumor nos ossos.

Confesso que estava morrendo de medo. Não do exame em si, mas do resultado que esse exame pode ter. Das tantas incertezas e tantas inseguranças. Porque esse processo de estadiamento é muito angustiante. Talvez seja uma das piores partes. Não saber exatamente a extensão e gravidade da coisa.

Como não é um exame complicado, que não tem qualquer tipo de reação, eu fui sozinha. Cheguei às 10h. Você toma uma injeção com o contraste e 3h depois vai para a máquina que vai mapear todos os seus ossos.

Eu cheguei no hospital meio pra baixo. Estava bem insegura, mas enquanto esperava o primeiro procedimento conheci a Ivone. Uma mulher da minha idade, que terminou o tratamento e está fazendo acompanhamento. Posso dizer que tê-la conhecido fez toda a diferença no meu dia. Uma pessoa super alto astral, que enfrentou sua doença e o tratamento de cabeça erguida. Sem parar de trabalhar, indo muitas vezes sozinha na quimio e radioterapias. 

Passamos as 3h de espera juntas. Almoçamos, fomos caminhar pelo bairro, nos perdemos e nos achamos. Descobrimos que moramos no mesmo lado da cidade e ela resolveu voltar de carona comigo. Eu já tinha lido sobre isso, mas hoje também descobri que as "amigas de peito" são incríveis. São mulheres que já passaram pelo mesmo que você tá passando, são pessoas que realmente entendem o que você está sentindo e, talvez por isso, tem condições de te ajudar a sair da "caverna do medo". Elas já conseguiram sair dessa caverna e podem te ensinar o caminho.

Hoje a Ivone fez isso por mim. Me viu lá no cantinho, triste - pensando em tantas coisas, e principalmente no quanto quero ver o meu filho crescer - e veio falar comigo. Perguntou alguma coisa, que nem lembro mais o que era, e me tirou daqueles pensamentos sombrios de dor, lágrimas e medo. Segundos depois ela estava me contando de como ela encarou essa situação toda.

Ivone é uma mulher simples, trabalha como diarista, e não parou de trabalhar durante o tratamento. Ela me disse que não tem tempo de ficar triste ou de passar mal. Não passou mal em nenhuma sessão de quimio. Disse que no dia seguinte levantava tomava banho e ia fazer faxina na casa da patroa. Quando eu perguntei como ela conseguia, ela me respondeu: "quando você perde um filho aos 21 anos, nada mais é tão complicado. Se você sobrevive à morte do seu filho amado, você é capaz de sobreviver a qualquer coisa. Um câncer pra mim, não é nada perto da dor que eu senti e sinto por ter perdido o meu filho.".

Ao longo do dia, ouvindo as histórias da minha nova amiga, fui ficando mais fortalecida, mais confiante. Como disse antes, é preciso  todos os dias se reabastecer de coragem, fé e confiança. Porque por mais forte que você seja ou esteja, muitas vezes vai vacilar. Por isso é tão importante ter incentivos diários dos amigos e familiares. A energia vai se esvaindo e você precisa constantemente encontrar meios de se fortalecer. Hoje quem fez isso por mim foi a Ivone, ontem foi a Eliana - uma pessoa querida que conheço a tão pouco tempo, mas que tem se mostrado uma grande amiga. Anteontem foi o Diego quem me ajudou a dormir e assim a vida vai seguindo.

Umas das coisas mais importantes que descobri hoje é que não vai ter como pular etapas. Para o meu tratamento ser bom, ser bem feito e funcionar, preciso passar por esse doloroso caminho do estadiamento. Quanto mais eles souberem sobre a doença, mas chances terei de combatê-la. Então o melhor jeito é tentar não ficar tão ansiosa com os resultados, não sofrer tanto por antecipação e nem tentar entender sozinha os resultados dos exames. Por mais que eu queira estar bem informada, acho que chegou o momento de parar de pesquisar e esperar o médico analisar tudo e me dizer exatamente em que situação está tudo e como será o melhor tratamento. Dia 24 passo no pré operatório e análise dos exames e depois disso saberei tudo o que eu preciso saber. 

Vou tentar não pensar mais tanto nesse assunto e não querer saber as coisas de qualquer jeito, pois isso está causando sofrimentos desnecessários que eu já tinha decidido não ter. Diego ontem me disse uma frase que pode me ajudar muito: "substitua o medo pela vontade de ganhar". Vontade de vencer eu já tenho, muita, só preciso me livrar, definitivamente, desse medo.

Torçam por mim,
Vibrem por mim,
Orem por mim!

Um beijo afetuoso.

  

sábado, 12 de maio de 2018

As etapas do medo - II

"Medo é um estado emocional que surge em resposta a consciência perante uma situação de eventual perigoA ideia de que algo ou alguma coisa possa ameaçar a segurança ou a vida de alguém, faz com que o cérebro ative, involuntariamente, uma série de compostos químicos que provocam reações que caracterizam o medo." por significados

Ontem busquei o resultado de alguns exames no IBCC. A mamografia, como já era de se esperar, veio com um laudo de Birads 2 - que significa: achados não malignos - Não há evidencia de nódulos, mesmo tendo um nódulo palpável de 2,3 cm que aparece no ultrassom e na tomografia.

Eu me revesti de coragem e abri o resultado da minha tomografia. Eram cinco páginas repletas de palavras incompreensíveis, mas, diante das informações que eu já tinha, em uma olhada rápida estava tudo bem. Nenhum órgão mais seriamente comprometido. No exame de tórax aparece o nódulo mamário medindo 2,3 cm, discreto espessamento inespecífico  bilateral nas axilas (provavelmente a cicatrização da exerese de mamas acessórias que fiz em 2014 - quando tirei duas glândulas mamárias das axilas). Estruturas ósseas torácicas íntegras, vasos com calibre preservados sem evidências de alteração de linfonodos, traqueia e brônquios livres. Oba! Até aqui nada de novo.

Pulmão: micronódulo inespecífico sem calcificações evidentes e restante do parênquima (tecido) normais e sem evidência de derrame pleural. Uma rápida olhada no google e: é muito comum achados de micronódulos (menor que 0,5 mm) nos pulmões, até ai tudo bem. Seja o que for é menor que 0,5 mm não será uma complicação maior, desencanei.

Fígado: dimensões e contornos preservados, pequena área apresentando esteanose focal - gordura - (provavelmente pelas toneladas de salame, queijo e produtos industrializados que comi até meados de fevereiro). Nada complicado tratável apenas com mudança de alimentação (que já estou fazendo). Veias porta e hepáticas normais. Ufa!

Vesícula biliar: normodistendida, sem evidência de cálculos, apresentando discreto espessamento que pode estar relacionado a adenomiomatose (relacionado à endometriose já diagnosticada anteriormente), nada preocupante.

Baço, pâncreas e adrenais de aspecto habituais. Maravilha!

Rins: dimensões e contornos preservados, eliminando simétrico e satisfatoriamente o meio do contraste aplicado, sem evidência de hidronefrose ou cálculos (Obaaaa! As três pedrinhas que eu tinham sumiram - vejam a postagem "beba água"! ). Meus rins queridos me perdoaram e estão lindos.

Aorta e veia cava inferior normais.

Bexiga: paredes de espessuras normais conteúdo homogêneo. Tomar água faz um bem enorme!

Útero e ovário direito de aspecto tomográfico habitual - tudo normal (Obaaaaaaa! meu endometrioma de 1,9 cm detectado ano passado sumiu - sem que eu precisasse tomar o anticoncepcional que o médico tinha receitado e eu tive medo de tomar). Ovário esquerdo com formações císticas (nada de novidade). Tudo bem até aqui!

Pequena hérnia umbilical (que deve estar ai desde que eu era um bebê).

Não há evidência de líquidos e alterações de linfonodos na cavidade abdominopélvica. Ufa, ufa, ufa! Sem alterações de linfonodos, significa: sem indícios de metástases, nos órgãos.

Até ai tudo bem, tudo muito bem mesmo, nada preocupante, nenhum outro nódulo significativo em outros órgãos. Mas, espera...

Antes da última linha que diz: restante do exame sem alterações significativas, tá escrito assim:

"Lesões escleróticas inespecíficas no corpo vertebral L2 e no osso púbico direito." Num primeiro momento não dei importância para esse achado, pensei: "ah! deve ser por algum esforço que fiz correndo semana passada e meu quadril começou mesmo a doer no lado direito."

Depois, com calma fui pesquisar exatamente o que isso significava, e... pá!

O que é uma lesão esclerótica? Quando digitei no google apareceu lá uma lista gigante todas começadas com: "tumores, lesão tumoral, células cancerígenas que se espalham..." Aquele maldito frio na barriga de novo! Li e reli vários sites confiáveis sobre o assunto e descobri, entre outras coisas que pode ser causada por uso de drogas (que nunca usei na vida), excesso de consumo de minerais (será?) e metástase de câncer originado em outro local, como câncer de mama, de próstata ou tireoide. Outras: podem ser causadas também por lesões que contraíram os ossos, por exemplo, a osteoartrite e osteoma. (menos preocupantes).

Pronto! Lá vem de novo o monstro horroroso do M.e.d.o!

Achei que ia ter paz depois de saber que não há nenhum nódulo significativo nos meus órgãos, mas não. Agora vou ficar apreensiva até sair o resultado da cintilografia óssea que vou fazer na terça, dia 15/05. Mais medo de metástase, mais medo do meu tempo estar acabando, mais coragem e força que vou ter de arrancar de dentro de mim mesma.

Chorei, chorei e quanto mais eu chorava mais dor eu sentia na costela esquerda e no quadril. Tomei remédio pra dor e nada. Chorei no banho, chorei abraçada ao Diego. Ouvi as considerações, sempre tão oportunas dele, me acalmei um pouco.

Tentei dormir e não consegui. Tudo de novo: olhei meu filho dormindo e sofri, senti um pavor enorme de não estar aqui mais muito tempo para cuidar dele. Chorei muito olhando ele dormir. 

No meio da madrugada comecei a raciocinar melhor: a dor que estou sentindo é nas costelas e no quadril. No exame diz: "Estruturas ósseas torácicas íntegras" (essa dor na costela deve ser por causa do nódulo no seio) e "Lesões escleróticas inespecíficas no corpo vertebral L2 e no osso púbico direito" (ok tudo bem, essa dorzinha no quadril pode ser por causa disso, mas eu sinto essa dor na região lombar desde quando a Bia nasceu - há 25 anos). Mesmo assim não consegui dormir mais que duas horinhas. Resolvi vir escrever aqui para me ocupar.

As pessoas não fazem ideia do que é estar com um câncer. Eu não fazia ideia do quanto é difícil passar por todas essas etapas. Lendo o blog da Marcia Cabrita, em uma das postagens ela diz que: "mais difícil do que se sentir 'a coitadinha' é querer se sentir a incrível e corajosa o tempo todo". Por mais que você se esforce, realmente é impossível se manter forte e confiante o tempo todo. Cada dia acontece algo novo que te tira do lugar comum. Que te enche de medo ou de confiança. Estou aprendendo que você precisa se alimentar de coragem todos os dias. Eu amanheço bem, mas no final do dia parece que as energias vão se esgotando e então começo a pensar demais, chorar e sofrer. É nessa hora que eu faço a minha meditação e tento expulsar os meus monstros todos. Normalmente consigo uma sobrecarga de energia e um pouco mais de paz para dormir (ouvindo as músicas relaxantes que a Adriane Soares, lá de Campinas, me indicou), tem funcionado bem, mas essa noite não.

Agora estou aqui, 8 da manhã, meio anestesiada de sono e cansaço, mas decidi não sofrer mais por antecipação, se é que isso é possível. Vou tentar esperar o resultado da cintilografia óssea, que é o único que vai poder me responder e esclarecer minhas dúvidas e medos. Vou tentar não pensar mais nisso até receber o resultado desse exame.

Orem por mim,
Vibrem por mim,
Torçam por mim,
Enviem suas melhores energias para mim.

Beijo todos!