segunda-feira, 23 de julho de 2018

Divisor de Águas

Eu sempre ouvia as pessoas dizendo que determinadas situações haviam sido um "divisor de águas" em suas vidas e ficava imaginando se algum dia eu passaria por uma transformação dessas. Quando fui mãe pela primeira vez, achei que havia atravessado um momento desses. É claro que foi uma mudança imensa na minha vida, mas nem mesmo a maternidade promoveu em mim um enfrentamento tão definitivo quanto o que estou vivendo hoje.


Hoje é o último dia que estou vivendo como a Adriana que todos conheceram e que chegou até aqui. Essa pessoa que nasceu, viveu por 46 anos de uma determinada maneira e chegou até esse momento, não vai mais existir a partir de amanhã. É o meu último dia inteira e meu último dia com câncer. Nos últimos três meses eu vivi um turbilhão de emoções. Eu chacoalhei a minha vida, a minha essência, eu revirei o meu baú e decidi jogar muita coisa fora, talvez eu jogue hoje até mesmo o baú. Esses últimos três meses foram o meu período de transição e hoje é o meu dia D. É o meu imaginado, até então, "divisor de águas". Amanhã, quando acordar da minha cirurgia, essa pessoa de agora não vai mais existir. 

Estou indo enfrentar uma das piores situações e medos de toda a minha vida até aqui, mas eu sei exatamente quem está indo comigo - mesmo que esteja à quilômetros de distância física de mim. Eu sei exatamente quem fez o impossível e saiu do Mato Grosso para estar aqui, eu sei quem ficou em Goiânia preocupado comigo, quem largou todos os seus afazeres e a sua vida lá no Paraná para estar aqui. Quem não pode estar aqui fisicamente, mas mesmo à milhares de quilômetros, está aqui juntinho comigo. Eu sei quem está comigo mesmo com o Oceano Atlântico imenso entre nós. Eu sei quem tá do outro lado do mundo fisicamente, lá em cima no Canadá, na Suíça, na Grécia, nos EUA, na Holanda, na França, na Itália, no Pará, no Paraguai ou espalhados pelo Brasil,  mas estão aqui comigo nesse exato instante. Eu sei quem é que tá lá na Bahia, desesperada para chegar aqui e poder me abraçar quando puder... Assim como eu sei exatamente quem me abandonou no meio do caminho. Quem está aqui ao lado, que poderia ter vindo ficar comigo nas horas mais difíceis que eu passei e não veio. Quem entra toda hora na internet, curte um milhão de coisas e não perde dois minutinhos e me pergunta como eu estou, há meses. Quem falava comigo todo santo dia e hoje não me procura mais. 

Quando você recebe um diagnóstico de uma doença grave, por mais difícil que isso seja, você também recebe uma das mais incríveis oportunidades na vida. A oportunidade de reflexão. Seja qual for o resultado final, você tem esse tempo para poder revirar o seu baú, rever as suas prioridades, fazer um balanço da sua vida e fazer todas as mudanças necessárias e isso é uma dádiva. Nem todo mundo tem esse tempo ou chance de fazer isso. De mudar o que precisa ser mudado, de rever o que precisa ser revisto e, no meu caso, a sorte de poder reverter a situação toda.

Amanhã quando eu acordar da anestesia será outra pessoa que terá acordado. Eu não sei ainda como será acordar sem uma das partes que mais me davam orgulho na vida. Eu nunca imaginei que um dia pudesse ter, ao mesmo tempo, sentimentos tão contraditórios: uma felicidade imensa por estar me livrando definitivamente do câncer e uma tristeza tão profunda por ter que ser mutilada. Amanhã eu não terei mais o orgulho de ter seios lindos e perfeitos, mas amanhã não terei mais câncer. É claro que ainda terei que passar (como forma de erradicação e prevenção) por quimioterapias, radioterapias e tomar hormônios por pelo menos cinco anos antes do médico me dizer que estou curada, mas o câncer, o tumor que me causou tanto medo e preocupação, não vai estar mais dentro do meu corpo.

Acho que jamais poderei agradecer como gostaria a todos aqueles que me suportaram até aqui. Que leram os meus textões, ouviram meus desabafos, não se irritaram com as minhas lágrimas, que me deram as broncas que eu precisava, quem de alguma forma aliviou o que eu estava sentindo e não se cansou de mim. Nem eu me suportei em alguns momentos. Eu sei que vou superar isso tudo, que vou me refazer, reconstruir, reerguer e vou conseguir isso porque tenho, aqui ou espalhadas pelo mundo todo, pessoas que realmente se importam comigo. E quando eu voltar para casa eu terei deixado lá junto desse tumor todas as minhas mágoas, ressentimentos, dores ou tristezas desnecessárias. 

Esse é o meu divisor de águas! O momento em que estou abandonando todos os pesos, os traumas, orgulhos, vaidades, futilidades e coisas que atrapalharam a minha jornada até aqui. Eu tenho refletido muito sobre as causas, os aprendizados e conhecimentos que essa enfermidade me trouxe. E acho que a maior descoberta de todas elas foi o quanto eu mesma tenho me ferido, machucado e maltratado nesses anos todos. Eu precisei de um laudo médico nas minhas mãos, eu precisei da materialização disso tudo para finalmente enxergar que a pessoa que mais me machuca sou eu mesma. Pois sou eu quem permitiu tudo o que vivenciei até esse presente momento. Fui eu quem aceitou relacionamentos tóxicos com familiares, quem se deixou ser psicológica e fisicamente  abusada, quem aceitou as migalhas afetivas de quem deveria ter me amado, quem mendigou afeto de quem não tinha para me dar. Fui eu quem deixou me esperando esse tempo todo -  pessoas que realmente me amam e se importam comigo - enquanto eu ficava chorando por um único afeto não correspondido. Fui eu que não aceitei a minha condição e não segui a minha vida, fui eu que não esqueci, que não perdoei pra valer e que não me permiti a ser feliz ao lado daqueles que realmente me querem ao lado deles. O maior aprendizado e a maior mudança de toda a minha vida será essa: eu não mais deixarei quem me ama esperando por mim enquanto sofro por afetos não correspondidos. Eu vou continuar amando pessoas que não me amam, porque não tem como se renunciar o amor. Mas eu descobri que antes de tudo vou precisar aprender a me amar, me perdoar, me aceitar e principalmente aprender a ser feliz. Eu preciso e mereço ser feliz.

Minha cirurgia será amanhã cedinho, às 7h!

Orem por mim!
Vibrem por mim!
Torçam por mim!









sexta-feira, 29 de junho de 2018

Todos Juntos Contra o Câncer!


Às vezes, é preciso passar por determinadas situações na vida para a gente perceber que não estamos sozinhos e o quanto somos abençoados. Que existe um empenho enorme das pessoas no hospital, para te ajudar, e que tenho a sorte imensa de estar num lugar onde tenho um tratamento privilegiado. Foi com um sentimento incrível de gratidão que sai da consulta de hoje com a equipe do Pré Operatório do IBCC.

A equipe é composta por: assistente social, nutricionista, fisioterapeuta, mastologista, chefe de enfermagem e psicóloga, Eles são muito competentes e além de esclarecer todas as dúvidas me deram uma baita injeção de ânimo.


Cada um falou da sua parte no tratamento, como será a cirurgia, o pré e pós operatórios, os direitos e benefícios que o paciente oncológico passa a ter depois do diagnóstico, como será a alimentação, a recuperação e até fotos de todo espaço que irei utilizar (sala de cirurgia, recuperação e quartos) eles mostraram. Falaram de tudo que precisarei fazer para evitar complicações após a cirurgia e a parte que eu mais gostei, com a psicóloga: que falou sobre a sua própria experiência na recuperação de um câncer e sobre as formas de passar por todo o tratamento mais tranquila, confiante e sem sofrimentos desnecessários.

Sai de lá mais confiante de que tudo vai se resolver logo e bem. A partir de agora, se não houver nenhum atraso na liberação do SUS, eles podem me ligar a qualquer momento informando a data da minha cirurgia. Achei que iria sentir um frio no estômago, mas o que senti foi uma esperança muito grande de que logo toda a parte chata terá terminado e estarei curada.

Hoje mesmo vou comprar as meias cirúrgicas, o material pessoal de higiene e até um pijaminha novo. Vou deixar a minha malinha pronta e esperar o telefone tocar com a boa notícia. Em breve, como disse para a Dra. Marilda (psicóloga), espero não estar mais dormindo - e convivendo - com o inimigo.

Apesar de brincar assim, acho que me sinto imensamente agradecida por tudo que estou vivendo. Sem esse diagnóstico acho que teria continuado vivendo da mesma maneira: me alimentando de forma errada, me estressando por qualquer bobagem, reclamando das coisas todas, guardando mágoa ou sentimentos negativos no meu coração e sendo egoísta a maior parte do tempo. Quando penso em todas as coisas ruins que estou abandonando durante essa caminhada eu realmente sinto que estou me curando, não apenas de um câncer, mas de todo excesso e psicopatias que eu carregava.

A vida está me dando uma linda oportunidade de rever. De zerar a conta e começar de novo e é assim que vai ser: recomeçar a viver, recuperar a saúde, renascer...

Orem por mim,
Vibrem por mim,
Torçam por mim.

Um beijo afetuoso a todos que acompanham a minha jornada.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O preço de uma escolha

mastectomia
  1. substantivo feminino
    cir excisão ou remoção total da mama; mamectomia.

É isso o que vai acontecer comigo nos próximos dias. Mastectomia total da mama esquerda, sem reconstrução imediata. Foi isso o que eu ouvi do Dr. Andrade na minha última consulta. Se por um lado começar um tratamento oncológico com uma cirurgia é um bom sinal - de que não há metástase e o tumor ainda está de um tamanho removível e pode ser feito antes de começar a químio. Por outro lado, não é nada fácil ouvir que vão retirar totalmente a sua mama esquerda. Algo que eu nunca imaginei que fosse acontecer comigo. Mais ainda, algo que eu nunca imaginei que pudesse ESCOLHER. Mas foi isso que aconteceu. 

Eu estava torcendo para começar mesmo pela cirurgia. Até então eu sabia que, por pior que fosse, já estarei livre do tumor e para me conformar a reconstrução seria imediata. Mas no dia decisivo para mim, não foi isso que aconteceu. Como sabem estou fazendo o meu tratamento pelo SUS e para uma reconstrução imediata é necessário conciliar as equipes oncológicas com o cirurgião plástico. Mas para fazer isso o tempo de espera, por uma vaga com o cirurgião plástico, seria de até três meses. Um tempo que eu não quero perder e não tenho para esperar. A pergunta do médico foi: "você quer esperar para fazer a reconstrução imediata ou já podemos solicitar a cirurgia para os próximos dias?" Antes de responder minha pergunta óbvia foi: "eu corro algum risco do tumor espalhar se esperar esse tempo todo?" E a resposta dele foi que sim. Então "escolhi" fazer logo a cirurgia. Em seguida ele me explicou que após um ano eu poderei fazer a tal reconstrução.

Dizendo assim parece simples, mas não é. Quando explico para as pessoas  elas me dizem: "ah, mas depois você faz uma plástica e fica tudo bem". Não é bem assim. A diferença é bem grande.  A reconstrução imediata tem um resultado (estético) melhor que fazer isso depois.  Por mais que fique uma cicatriz imensa, existe um volume (que permanece com o extensor) que faz com que a pessoa ao menos se iluda que continua inteira. 

Eu sempre tive seios lindos. Talvez seja a parte do meu corpo que eu mais gosto. Me orgulhava de, aos 46 anos, ainda conservá-los firmes, sem estrias ou flacidez. Ficava feliz de me olhar no espelho e vê-los simétricos, uniformes e muitas vezes mais belos do que os de algumas adolescentes que já tinha visto.

Ficava realmente feliz de ter passado por duas gravidez e ter conseguido mantê-los bem conservados. A ficha só caiu ontem no banho. Enquanto me lavava me dei conta de que daqui alguns dias a minha realidade será completamente diferente. Fiquei me lembrando de quando eles começaram a nascer: eu tinha doze anos. Me lembrei do meu primeiro sutiã e de todas as vezes que eu me senti sexy e bonita por causa dos meus seios. Do quanto eles elevavam a minha autoestima, mesmo quando não estava completamente satisfeita com o meu corpo. Então eu comecei a pensar nas escolhas todas que eu fiz e que me trouxeram até aqui.

Dentro em breve, quando me olhar no espelho - por pelo menos um ano inteiro - será assim, como na foto ao lado, que vou me ver. Por mais que eu tenha escolhido fazer logo a cirurgia, na verdade essa foi a única "escolha" que eu tinha. Ou eu aceito tirarem um pedaço de mim ou posso complicar a minha situação -e isso implica em me curar ou não do câncer. Então, escolher viver, não foi nenhuma escolha, mas a única alternativa que eu tinha.

O que eu poderia ter escolhido antes era ter cuidado melhor de mim. Ter feito talvez aquele plano de saúde que eu não fiz porque achava caro demais e um desperdício - já que eu poderia fazer uma medicina preventiva pelo SUS. A verdade é que eu sempre me deixei meio que em segundo plano em quase tudo na vida. Deixei de gastar um dinheiro comigo que agora poderia ter poupado o meu seio esquerdo - já que pelo plano de saúde essa reconstrução seria imediata. Essa foi uma escolha que eu deveria ter feito e não fiz.

Eu poderia ter pesquisado melhor sobre mamografia e ultrassom. Ter descoberto, em tempo, que alguns nódulos não aparecem na mamografia e ter feito o ultrassom sempre (e não apenas a mamografia que fazia pelo SUS todo ano). Se eu soubesse, teria pago anualmente por um ultrassom e teria descoberto o nódulo em tempo de não precisar remover a mama inteira. Enfim, pensamentos que agora não me ajudarão em nada. 

Serão 365 dias, ao menos, de espera por um resultado que talvez não seja tão bom quanto se fizesse a reconstrução imediata, mas é o preço que vou pagar para ficar viva e me curar. Então não é um preço tão alto, visto dessa forma.

Quando digo que ninguém "tira um câncer de letra", é disso que estou falando. Nenhuma mulher no mundo faria uma escolha dessas, a não ser que não tenha mais escolha nenhuma. É o que me convenço quando alguém me diz que "vai ficar tudo bem" e eu sei que não vai ficar tudo tão bem assim. 


Quando a Angelina Jolie decidiu fazer uma mastectomia bilateral preventiva, muita gente a criticou - sem saber as razões dela. Pelo que li ela tinha muitos casos de câncer na família e fez um exame genético, o BRC, e deu positivo para hereditariedade. Para ela era uma questão de tempo desenvolver um câncer de mama. Então ela escolheu, em tempo, retirar as mamas - preservando mamilos e reconstruir imediatamente. Ela escolheu viver e permanecer "inteira". É uma escolha que a maioria das mulheres teriam feito se pudessem. Eu inclusive. Se eu imaginasse que em quatro anos seria diagnosticada com um câncer de mama, teria retirado tudo quando me operei em 2014 e retirei duas mamas acessórias axilares. Eu tinha quatro, em vez de duas, glândulas mamárias. E a voz do meu médico dizendo que era melhor tirá-las para evitar "problemas futuros" ainda ecoa na minha lembrança. Ah! Se eu soubesse, teria escolhido tirar tudo, como fez a Jolie.

Ainda tenho um pedaço bem difícil pela frente, mas no final das contas a alma estará ilesa. Assim espero. O que quero dizer a vocês hoje é: PREVINAM-SE!
SE TOQUEM! (câncer de mama não dá só em outubro).
FAÇAM EXAMES PERIÓDICOS (mamografia e ultrassom, sempre)

E além disso:

Orem por mim,
Torçam por mim,
Vibrem por mim.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

A vida me sorriu!




felicidade
substantivo feminino
  1. 1.
    qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar.
  2. 2.
    boa fortuna; sorte.



Depois de dias de tanta angústia, medo e preocupação, a vida me sorriu. Agora posso respirar de novo em paz. Hoje peguei o resultado de todos os exames e, graças à Deus, o tumor está só localizado mesmo. Não há nenhuma alteração dos linfonodos ou sinais de metástases. A cirurgia já foi liberada por toda a equipe médica: cardio, anestesista e mastologista. Agora é só aguardar a liberação, que deve acontecer nos próximos dias, para fazer a cirurgia.

Para mim a pior parte - que era não saber a gravidade da doença - passou e quando a médica disse que estava tudo certo com os meus exames, foi como se tivessem tirado um peso imenso dos meus ombros. Em seguida ela me passou toda a papelada e as guias de autorização da cirurgia. A minha felicidade era tanta naquele momento que nem pensei no fato de que, dentro de alguns dias, vou perder completamente meu seio esquerdo. Estar livre da doença é a única coisa que me importa agora. Depois a gente refaz tudo o que precisar refazer. Receber a notícia de que você pode recuperar completamente a sua saúde, é algo que simplesmente não tem preço. E a gente só se dá conta disso quando se vê numa situação de escolha como essa. E hoje eu escolho ter saúde e ser feliz novamente.

Eu sei que tenho ainda muita coisa pela frente: uma cirurgia emocionalmente complicada - uma mastectomia radical da mama esquerda -, sessões de quimio e, talvez, radioterapias e um tratamento hormonal por longo período, mas para mim o pior de tudo realmente acabou hoje. O mais difícil pra mim sempre foi a parte do estadiamento - fazer e esperar todos os muitos exames que iriam me dizer a gravidade da minha doença. E isso acabou hoje! Agora eu sei a cara que esse monstro tem e tudo que vou precisar fazer para enfrentá-lo. E sei também que posso dar conta dele. Saber que o tumor é local, que não há sinais de comprometimento de outros órgãos ou partes do corpo é algo simplesmente maravilhoso, numa situação como essa. Saber que eu posso me curar completamente me dá uma força e coragem inexplicáveis. Agora eu realmente sei que posso vencer essa luta. E vou fazer tudo o que puder para que isso aconteça da melhor forma. 

A tortura acabou, as nuvens negras se dissiparam e a deprê perdeu de vez o lugar na minha vida. Estou arregaçando as mangas para enfrentar o que vier, me concentrar no tratamento e na minha cura. Logo logo estarei completamente saudável de novo. Estar livre desses sentimentos de medo e preocupação muda tudo pra mim. Nem tenho palavras para descrever a libertação que estou sentindo.

Obrigada, obrigada, obrigada! 
Obrigada de todo coração à todos que estão torcendo, orando e vibrando por mim.



domingo, 3 de junho de 2018

Um Isolamento chamado Câncer!

Quem já recebeu, em algum momento da sua vida, um diagnóstico de câncer vai entender melhor essa postagem. Quando você abre seu coração e expõe o que está vivendo as pessoas virão, solidárias, demonstrar o seu apoio e isso, sem sombra de dúvidas, faz um bem enorme.

Mas, depois de algum tempo a gente vai se dando conta do quanto essa jornada será longa e solitária. Ainda que receba o carinho das pessoas, o fato é que você terá de enfrentar os piores momentos sozinha.

Por mais que o seu marido esteja lá, na antessala, de mãos dadas com você, quando chamam o seu nome para algum exame, você precisa soltar a mão dele e entrar (e enfrentar) tudo sozinha. Mesmo que esteja recebendo amor e cuidados muitas vezes aquilo que você está sentindo nem tem como ser compartilhado. E ainda nem estou falando daquelas pessoas que simplesmente pararam de te procurar e sumiram. Porque a verdade é que quase ninguém entende de verdade o que você está passando. Poucos sabem o que é estar com câncer. A não ser que esteja passando ou já tenha passado pela mesma situação.

Mesmo que você tenha boa vontade de explicar todo o processo e por mais boa vontade que as pessoas tenham em tentar entender, as coisas simplesmente não têm como ser avaliadas por quem está de fora. É muito difícil para as pessoas, mesmo aquelas que realmente se preocupam com você, acompanhar a avalanche emocional de um paciente oncológico. Há pessoas que sequer conseguem falar a palavra câncer. A falta de conhecimento sobre o assunto e todo o estigma de morte que envolve a doença ainda é muito forte. Algumas pessoas simplesmente não conseguem lidar com isso. Não se sentem confortáveis e se afastam. Algumas sequer falam com você após o diagnóstico e então você vai se sentindo cada vez mais sozinha.

Ainda que você tente entender a dificuldade que algumas pessoas têm, perceber que algo mudou te deixa muito triste. Saber que pessoas que falavam sempre com você, e até mesmo familiares, se afastam é mais uma coisa difícil que a gente precisa aprender a lidar. Quando se trata de um familiar próximo a situação é ainda mais complicada. É preciso criar uma força sobrenatural para conseguir se manter forte e não cair na depressão. Isso talvez machuque mais que a doença. A maioria das pessoas não está preparada para lidar com alguém diagnosticado com câncer. 

Tem dias que você vai estar forte, decidida e confiante na sua cura, já em outros vai estar pensando um monte de bobagens. Vai estar morrendo de medo e precisando muito de um colo, que nem sempre terá. O afastamento de pessoas queridas dói demais. Saber que você não vai poder contar com pessoas - que você tinha certeza que estariam ali com você - é algo bem difícil de lidar. Pra quem vive numa cidade grande, feito eu, longe da família e da maior parte dos amigos, é um desafio e tanto se manter motivada. Na maior parte do tempo somos eu, o Tomás e, nos finais de semana fico mais tempo com, o Diego. Vejo poucos amigos. E eu sei que todo o tratamento irá impor um isolamento ainda maior. Isso tem me preocupado muito, pois é um momento de muita fragilidade emocional (e estamos falando de uma pessoa que já era bastante instável antes do diagnóstico).

Hoje li uma matéria que fala justamente sobre isso. Que a solidão e o isolamento podem contribuir para recidiva e aumenta em até 60% as mortes por câncer de mama. Isso me deixou apavorada. No fim de semana já fiquei bem triste por ter sido convidada, "pero no mucho", para uma diversão. Eu tinha colocado muita expectativa de sair, me divertir e esquecer um pouco os problemas, mas no fim não deu nada certo e fui dormir chorando por ter sido "esquecida". Eu nem comecei ainda o meu tratamento e já sinto às vezes esse tal isolamento.

É claro que tem pessoas que estão ali prô que der e vier, como a minha mais-que-irmã Cris, que na sexta fez, aliás o Kauê, marido dela fez, um almoço delicioso e tivemos um dia super agradável. Eu seria extremamente injusta se não dissesse que tenho pessoas incríveis ao meu lado, mas o fato é que algumas coisas andam pesando bastante. Eu preciso me conectar com o mundo e fazer todas as mudanças que eu quero na minha vida. E eu quero trabalhar, quero ficar mais tempo com o Diego, quero sair e me divertir, quero fazer mais as coisas que eu gosto e estar mais perto das pessoas que realmente se importam comigo.

Essa coisa de não pertencer mais ao "mundo das pessoas saudáveis" é complicado. Você se olha no espelho e não há nada de errado com você, mas olha os seus exames e tem um monstro terrível no teu caminho - um monstro grande e feio que você vai ter que enfrentar sozinha. E vai ter que lidar com uma porção de comentários infelizes, talvez ingênuos,  e muitas vezes fingir que não entendeu. Vai ter que explicar um monte de vezes a mesma coisa (às vezes pra mesma pessoa) e ainda ter que estar sempre bem pra não espantar ainda mais as pessoas. Muitas vezes você mesmo vai se isolar por saber que não será uma boa companhia. 

Uma das coisas que já descobri é que "ninguém no mundo tira um câncer de letra!". Ninguém! Se alguém disse isso não deve ser verdade. Não dá para passar por isso tudo na boa o tempo todo. Por mais forte e determinada que você seja, tem dias que vai estar no chão e na maioria das vezes não vai ter ninguém lá pra te ajudar (e, a bem da verdade, você nem vai querer ninguém lá te juntando do chão).

Por mais que tenha um monte de gente a sua volta, você nem sempre vai se sentir parte. E nem sempre vão saber te dizer a coisa certa. Então você se fecha. É por isso que o sentimento de solidão é muito grande nesse momento. Escrever aqui no blog tem me ajudado a lidar um pouco com isso. Dividir o que estou passando, minhas dores e descobertas, alivia um pouco a pressão emocional. Espero, em breve, conhecer mais pessoas, aqui no blog ou lá no IBCC, porque eu sei que estar com pessoas que estão passando pela mesma situação vai me devolver o sentimento de pertencimento.

No fim das contas eu sei que tudo vai melhorar muito depois que eu fizer a cirurgia e saber que esse câncer não está mais aqui dentro de mim. Por enquanto ainda é muito complicado passar a mão no seio e sentir esse caroço fazendo parte do meu corpo. Saber que ali estão crescendo (mesmo que lentamente) células que podem te matar é algo assustador. Ir dormir e acordar sabendo que há algo ali, palpável, dentro de você que está te destruindo não é uma coisa fácil de lidar.

Eu não queria que essa postagem tivesse esse ar deprê. Queria ter falado isso tudo de outra forma, mas hoje, talvez por conta dos hormônios (sempre eles) não estou lá muito "u-hulll", Mas amanhã, depois de descansada, acordarei mais confiante que a situação vai ser facilmente resolvida e que depois do tratamento todo eu vou poder esquecer que tive essa pelota estranha, um dia, crescendo dentro de mim.

Quer saber mais? (clique nos links):

Vamos lá!
Orem por mim!
Vibrem por mim!
Torçam por mim!
Me convide pra um café!

Beijo Todos!













quinta-feira, 24 de maio de 2018

Gratidão

gratidão
substantivo feminino 
1.qualidade de quem é grato.
2.reconhecimento de uma pessoa por alguém que lhe prestou um benefício, um auxílio, um favor etc.; agradecimento.
3.Em um sentido mais amplo, pode ser explicada também como recognição abrangente pelas situações e dádivas que a vida lhe proporcionou e ainda proporciona.
Sempre ouvi que "depois da tempestade sempre vinha o tempo de bonanças". O que eu nunca havia imaginado é que poderia viver a bonança bem no meio da tempestade. A vida, às vezes, te coloca de frente a circunstâncias que você jamais cogitou um dia viver. Hoje foi um desses dias: o pior e o melhor.

Como vocês sabem estou há quase um mês realizando exames e mais exames para saber o estadiamento do nódulo cancerígeno que se alojou no meu seio esquerdo. Nesse ínterim fiz  tomografia - do pescoço até a pelve-, mamografias, ultrassons, biópsias, imuno-histoqúimica e um exame chamado cintilografia óssea. Tudo isso para definir o tipo do tumor, qual o receptivo e o que poderá curá-lo, se havia ou não outros tumores e o mais angustiante de todos: se o tumor primário havia ou não se espalhado. Foram dias e dias de intensa angústia e espera. 

Hoje passei mais um dia no IBCC. Peguei os exames que faltavam e passei na análise e pré-operatório. Enquanto esperava o médico me chamar, não me contive e abri os exames. Primeiro li a contra prova da biópsia original, que confirmava as informações e características observadas no laboratório anterior. Até ai tudo bem, nada de novo! Quando comecei a ler a imuno-histoquímica (sem entender absolutamente nada) começou o meu sofrimento. Quanto mais eu lia a palavra "positivo" mais eu me desesperava. Positivo para estrógenos, positivo para progesterona, HER2, etc... comecei a chorar. Na minha cabeça tinha que estar tudo negativo e não estava. 

Resolvi então abrir a cintilografia óssea e antes de terminar de ler o laudo já estava em prantos. Totalmente ignorante sobre o conteúdo do laudo que estava lendo: "...alta concentração de rádio-farmáco (contraste) apontam lesões ósseas nos ombros, clavículas, coluna e pelve...". Desesperada, imaginei o pior quadro possível e comecei a chorar compulsivamente. Só pensava naquelas lesões todas espalhadas pelo meu corpo e pensava: "o que eu vou fazer agora? Como vou me livrar disso tudo? Como eu fui fazer isso comigo? Vou deixar o meu filho tão pequeno sem mãe?". O desespero tomou conta de mim completamente e chorei, sem o menor constrangimento, na frente de dezenas de pessoas, como nunca havia chorado em toda minha vida. No meio dessa situação a médica da equipe me chamou.

Já entrei no consultório dizendo: "Dra. eu abri todos os exames, já li tudo, está tudo espalhado por todo meu esqueleto!". E ela calmamente me falou: "Você não devia ter aberto os exames. Eu vou analisá-los todos e depois vou te explicar tudo. Mas é bom que você saiba que nem tudo o que parece é o que você possa estar imaginando. Enquanto ela analisava os exames eu olhava as fotos do meu pequeno e chorava desesperadamente. Até que ela terminou de ler os exames e me falou: "Eu olhei os seus exames e em lugar nenhum se sugere que há metástases nos seus exames.". Nesse momento eu me senti igual aquelas crianças que choram compulsivamente e do nada simplesmente param de chorar e começam a ouvir. Só consegui dizer a ela: "você, jura?".

E a médica continuou: Olha, o que aparece aqui na cintilografia são "LESÕES DEGENERATIVAS OSSEAS", que podem ser causadas por envelhecimento ou traumas. Se fossem suspeitas de metástases estaria escrito: "sugestivo de LESÕES POR TUMOR SECUNDÁRIO!" Dai ela me mostrou os outros exames e disse: "não há nada nos órgãos, os linfonodos não estão alterados em nenhuma parte do seu corpo (se o tumor tivesse espalhado seria o primeiro indício).  Em seguida ela disse que ia chamar o Dr. Andrade (responsável pela equipe) e juntos iriam olhar todas as imagens dos meus exames e analisá-las junto com a médica que fez o laudo e em seguida me dariam um diagnóstico.

Minutos depois eles retornaram, avaliaram minunciosamente o nódulo, os linfonodos das axilas e então o Dr. Andrade me disse: "olha suas lesões são causadas por envelhecimento, são lesões compatíveis com a sua idade.". Eu já vou encaminhá-la pra os exames pré operatórios, mas vou pedir uma nova tomografia ampliada da pelve, apenas para confirmar o meu diagnóstico (por excesso de zêlo apenas e para você se sentir mais confiante), mas já posso te adiantar que o protocolo provável será o seguinte: cirurgia - mastectomia total da mama esquerda, porque o nódulo está bem no meio, atrás do mamilo na junção dos quadrantes da mama e por precaução vamos retirar todo o tecido e fazer a reconstrução imediata da mama. Vamos retirar um linfonodo, que será analisado por biópsia na hora e se não houver células cancerígenas nesse linfonodo terminamos a cirurgia aqui. Depois serão as sessões de quimio e rádio e depois o tratamento com hormônios. E então me passaram todos os exames pré-operatórios que tenho que fazer para a próxima etapa.

Hoje mesmo já comecei a fazer os exames. Amanhã faço mais dois e na outra semana o restante dos exames e consultas com o cardiologista e anestesista. No dia 07/06 retorno com todos os exames para agendar a cirurgia ou, na pior das hipóteses, reavaliar o protocolo.

Foi nesse instante, que chamei de "alívio imediato", que comecei a agradecer. Mais que isso, comecei a compreender verdadeiramente o que é se sentir grato. O que é ter verdadeira GRATIDÃO, por absolutamente tudo: pela vida, pelos meus filhos e marido, pela equipe médica, pelos amigos que estão me apoiando. Então, me peguei agradecendo até mesmo o improvável. Eu estava ali agradecendo pelas minhas lesões degenerativas ósseas não serem lesões de tumor secundário. Naquele instante eu agradeci de alma e coração por ter lesões degenerativas. Agradeci pelas dores nas costas e ombros serem dores de envelhecimento. Eu agradeci por estar envelhecendo e não morrendo. Agradeci com todo meu ser por tudo e todos. Absolutamente todos que eu conheço e que, de alguma forma, estão pensando em mim nesses últimos dias. Agradeci à Deus, ao Universo, à vida, às orações, as vibrações, as torcidas, as palavras de conhecidos e desconhecidos que chegaram até a mim em algum momento e disseram: "você vai conseguir!".

Ainda falta muito, muito mesmo para a minha jornada terminar. Na verdade o tratamento sequer começou pra valer ainda, mas eu já consegui estar completamente agradecida. Agradeci pelo tumor ser positivo para os hormônios, agradeci pelo HER2 (com 2 positivos) não ser um triplo negativo (assim que descobri que o negativo seria pior porque o tumor não responderia aos hormônios que vão me curar). Eu nunca, em toda minha existência, nem por um segundo, imaginei que um dia agradeceria por estar com um carcinoma ductal invasivo grau histológico I e HER2. Mas eu agradeci a isso hoje. E agradeci a tudo quanto consegui me lembrar que eram coisas boas que eu tenho na minha vida. Agradeci até mesmo o fato de que vou perder completamente o meu seio esquerdo e ficarei por um ano inteiro com um extensor dentro de mim. Mais que isso: eu agradeci por tudo que vou passar. Agradeci as sessões que quimio que farei, os cabelos que perderei, as radioterapias que irão queimar profundamente a minha carne. agradeci aos hormônios que vou tomar, por pelo menos 5 anos, e agradeci profundamente pela possibilidade de, no final desses 5 anos, eu poder ouvir: "você está curada!"

Essa foi uma das lições que aprendi hoje: SER VERDADEIRAMENTE GRATA!
Não que eu fosse ingrata, nunca achei que sou ingrata, mas hoje eu descobri o que é ser grata até pelas coisas mais complicadas e difíceis que já tive que enfrentar na vida. E a maior gratidão de todas que eu estou sentindo nesse momento é por não estar mais desesperada de medo de deixar os meus filhos e o meu marido. Por ter conquistado de volta a esperança, a fé e a confiança de que eu realmente vou sair dessa situação.

Hoje não vou pedir que continuem orando, vibrando ou torcendo por mim. 
Hoje eu digo a vocês:

OBRIGADA por orarem por mim!
OBRIGADA por vibrarem por mim!
OBRIGADA por torcerem por mim!
OBRIGADA por vocês existirem.