quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Os Varredores e Meu Tio

Impossível olhar o quadro Os Varredores - 1935 do artista brasileiro Carlos Prado e não se lembrar do filme Meu Tio - 1958 do Jacques Tati.
Essa foi a minha gostosa descoberta nesse sete de setembro chuvoso.
O MASP estava lotado por causa do feriado e eu ali quase ofendida pelo descaso com que um senhor passou ao lado de O Banco de Saint Remy. Falava alto e, pior, ignorando completamente a grandeza daquele meu quadro preferido dentre todos no mundo inteiro.
Poderia ter me irritado muito não tivesse visto, logo ali ao lado da Ponte de Monet, Os Varredores. Fui imediatamente atraída pelo quadro e em dois segundos vi o Sr. Hulot na minha frente. Lá estava ele com sua capa bege, seu chapéu e o guarda-chuva. Até mesmo o cabo da vassoura de um dos varredores me lembrou o inseparável cachimbo do Sr. Hulot.
Fiquei maravilhada com a descoberta.
Coincidência?
Tiveram as mesmas influências?
Será que Tati um dia se deparou com esse quadro e - como Jeunet que um dia olhou um Juarez Machado e levou suas cores para Amèlie Poulain - resolveu fazer de Os Varredores pano de fundo de seu filme?
Infelizmente não encontrei essa resposta, mas algumas coisas de fato os dois - Prado e Tati - tiveram em comum: ambos nasceram em 1908, estavam na Europa na década de 1920, tinham temperamento difícil, eram arredios e muito, muito talentosos.
Para minha tristeza não encontrei muita informação sobre Carlos Prado. Apesar da sua enorme contribuição ao modernismo brasileiro, o artista isolou-se em Bragança Paulista e como fez poucas exposições, acabou esquecido. Pouco encontrei sobre ele clicando no Google, mas vou continuar pesquisando. Caso alguém tenha alguma dica, será muito bem vinda.
De qualquer forma, é um delicioso exercício comparar o quadro com o filme. Vejam:

O quadro

O ambiente do filme


Um dos varredores conversando

Sr. Hulot conversa com o varredor no filme

As linhas retas da árvore do quadro

As linhas retas das plantas no filme

Detalhe da calçada no quadro

A calçada do filme

A presença do cachorrinho no quadro

Os cãezinhos no filme
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Se você estiver em São Paulo, não deixe de passar no Masp para conferir o talento de Carlos Prado. Também não deixe de ver o maravilhoso Meu Tio.




Fonte de Pesquisa:

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O vestidinho amarelo

Minha tia Isa ia se casar. Alguns dias antes fomos – minha mãe, minhas tias e eu – numa boutique em Iporã. Coisa importante comprávamos sempre na cidade vizinha, um pouco maior, onde haviam lojas mais modernas. Nesse dia minha mãe me comprou um lindo vestido amarelo de tricô.


Meu vestidinho era todo bordado na pala e na gola. Tinha mangas compridas e pregas que saiam logo abaixo do peito.


Junto com o vestido, minha mãe comprou uma meia calça rendada e um par de sapatos brancos, estilo boneca, com fivelas.


Eu me apaixonei imediatamente pelo vestidinho amarelo. Já queria ir para casa vestida com minha roupa nova, mas minha mãe não deixou.


O casamento só aconteceria dali a quinze dias. Eu tinha cinco anos e quinze dias era muito tempo de espera. Todos os dias eu pedia para minha mãe me deixar usar o vestido novo e ela sempre dava a mesma resposta dura:
-Não! Só no dia do casamento.


Eu fui ficando triste e amuada. De triste fiquei doente. Até febre eu tive.


Minha mãe me deu remédio, contou histórias, me agradou de todo modo, mas nada adiantou. Eu continuava febril e amuada. Quando minha mãe perguntava a razão de tanta tristeza eu só respondia que queria usar meu vestidinho.


Preocupada minha mãe não teve escolha. Dez dias antes do casamento ela se rendeu. Me deu banho, passou talco, colocou-me a meia calça, o vestido e os sapatos novos. Penteou os meus cabelos e fez uma trança. Depois me pegou no colo, chamou minha tia e então saímos. Fomos até a quitanda do seu Júlio e compramos maçãs frescas.


Quando minha mãe se cansava me passava para minha tia e vice versa. Usei a roupa nova, mas não pisei no chão em momento algum. No dia seguinte, milagrosamente sarei.


Confesso que fiquei meio frustrada de não ter podido correr livremente pelo quintal com o meu vestido novo e também porque no dia do casamento eu fui a única que não estava com uma roupa novinha em folha.


Quando eu era criança era bastante comum a molecada adoecer quando queria muito alguma coisa. Fiquei com febre por causa de queijo prato e chocolate. Meu irmão, bem mais esperto, adoeceu por causa de uma bicicross e um ferrorama.


Com o tempo os pais ficaram mais espertos.
Ah! Tá doente é? Então vamos na farmácia aplicar uma injeção para curar essa febre.
A criançada sarava rapidinho.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Pé de Bife

Eu devia ter uns 4 ou 5 anos no máximo. Morava na casa dos meus avós e vivia rodeando minha mãe e as minhas tias ainda moças e que, para mim ao menos, estavam sempre fazendo ou dizendo coisas interessantíssimas.

Era uma casa de madeira com três quartos e um quintal enorme. Nessa casa, no interior do Paraná, havia um belo jardim cultivado com muito carinho pela minha avó. Tínhamos hortências azuis, um pinheirinho de natal e até um pé de café. Tudo que poderia nascer e crescer na terra a minha avó metia ali no jardim, resultando numa verdadeira confusão de árvores, plantas e flores. Mas, por alguma razão que desconheço, aquilo tudo harmonizava-se e o jardim era realmente muito bonito.

Na manhã de um sábado ensolarado acordei e não encontrei ninguém na casa. Passei pela cozinha, apanhei um pãozinho de minuto recém saído do forno e comecei a chamar pela minha avó. Logo descobri que as mulheres da casa estavam todas no jardim, aguando as plantas e conversando.

Fiquei por ali ouvindo a conversa enquanto observava a destreza com que minha avó tirava os galhinhos e folhas secas de uma das plantas.

Em seguida minha avó e minha mãe entraram, provavelmente já estavam preocupadas com os afazeres do almoço. Meu avô e meus tios chegavam por volta das onze horas para almoçar.

Assim que elas entraram, minhas tias começaram a falar sobre as flores, de como estavam bonitas e que minha avó tinha uma mão ótima para plantá-las. A conversa girava em torno disso quando a tia Isa falou:

- Eu queria saber como é um pé de pimenta do reino, pois eu nunca vi nenhum!
- E eu – disse a tia Ironí – queria saber como é um pé de cupuaçu.

Querendo entrar na conversa e ao mesmo tempo satisfazer minha curiosidade, saí com essa:

- Ah! Eu queria mesmo era saber como é um pé de bife!
- Um pé de bife?!- riram as duas espantadas.
- É! – respondi sem graça.

Então a tia Isa me explicou que não existia um 'pé de bife'. Fiquei intrigada quando ela disse que as carnes que eu via penduradas no açougue do seu João vinham das vacas.

Pensei em como era que as vacas produziam as carnes. Imaginei que deveria ser algo parecido com a produção do leite. Demorou ainda um bom tempo para eu descobrir toda a cruel verdade.