quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meu Querido Cineasta

Outro dia, Diego e eu, visitamos um amigo querido: 'Seu' Agostinho Martins Pereira. O 'Seu' Agostinho é um senhorzinho de 87 anos que durante quase cinco anos foi meu vizinho, no sobradinho da Rua Caracas onde eu trabalhava.

Por cinco anos, quase todas as tardes, eu fugia do trabalho para papear no portão ou tomar chá com o meu vizinho querido.

Nos conhecemos por causa de um gatinho. Um belíssimo gato de pelos cinza. Enquanto a filha passeava por Londres e Paris ele tomava conta do gatinho.

Numa tarde quente, enquanto eu imprimia uns documentos, o gato fugiu e entrou sorrateiro na minha sala. Apaixonada por gatos tratei logo de oferecer um pires de leite ao bichano. Minutos depois, um senhorzinho bastante interessante aparece procurando pelo gatinho. Ali mesmo engatamos uma conversa que durou a tarde toda.
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Na manhã seguinte lá estava o vizinho, na sacadinha da sua casa, me acenando e mandando beijos. Desse dia em diante passou a fazer isso quase todas as manhãs. Passei a ser recebida, ao chegar ao trabalho, pelo meu adorável amigo com sonoros: "Bongiorno Principesa" ou "Bon Jour ma Cherrie!"
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Eu me acostumei rápido com seus acenos e beijos matinais. Durante as tardes, pouco antes do final do expediente, fazíamos um pequeno sarau: falávamos de poesias, de lugares, filmes ou coisas da vida. Algumas vezes tomávamos chá.
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Só depois de uns dois ou três anos de amizade descobri quem era de verdade o meu vizinho querido. Entre uma conversa e outra contei para ele que estava revendo os velhos filmes da Dercy Gonçalves. Quase cai dura quando ele humildemente contou:
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-Sou um cineasta aposentado. Trabalhei na Companhia de Cinema Vera Cruz, você já ouviu falar? Dirigi nove filmes, entre eles 'Apassionata', filme que escrevi para a Tônia Carrero. Foi também o primeiro filme que o Paulo Autran atuou.
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E eu ali perplexa:
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-Como é que é? O Sr. fez o que?
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E ele:
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-Sou cineasta e fiz nove filmes. Já assistiu o gato de Madame do Mazzaroppi? Eu dirigi alguns filmes dele.
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Nesse dia ficamos papeando no velho portão enferrujado até anoitecer. Ao chegar em casa fui direto para a Internet e digitei: 'Agostinho Martins Pereira'. Não encontrei muita coisa sobre o anônimo descobridor do Mazzaroppi.
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O fato dele ser um dos mais importantes cineastas da época gloriosa do cinema brasileiro, não alterou em nada nossa rotina. Continuamos a falar sobre banalidades e gatos.
Fui sua vizinha por mais dois anos. Tempo suficiente para conhecer e me casar com outro amante do cinema. Diego quer, mais que tudo, ser cineasta. Quando lhe contei sobre meu amigo famoso ele ficou empolgadíssimo. No mesmo dia me fez levá-lo para conhecer 'Seu' Agostinho. Foi paixão à primeira vista.
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O cineasta estava de bom humor. Fez piada com as nossas alianças - feitas de casca de coco pelos Índios Zorós do mato Grosso. Ele também gostou do Diego, mas não queria, de jeito algum, falar sobre cinema. Talvez alguma mágoa ainda lhe machuque o coração.
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Alguns dias depois entenderíamos melhor sua reserva. O Diego trabalha como indicador de filmes e, desde que conheceu 'Seu' Agostinho, passou a pesquisar sobre ele. Numa tarde conversando com o nosso herói me contou que haviam lançado um livro com a biografia dele. Mais do que depressa compramos o livro.
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Descobrimos que a vida do nosso amigo era infinitamente mais interessante do que poderíamos supor. ele foi simplesmente um dos fundadores da antiga Companhia de Cinema Vera Cruz. Sua história de vida é fascinante.
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Meu carinho por aquele senhorzinho que cresceu no Itaim Bibi - quando Itaim era ainda um bairro esquecido da periferia de são Paulo na época - só fez aumentar. Ele foi um garoto muito pobre que vendia bananas para comprar cadernos e crescia obstinado a se tornar cineasta.
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Conforme avançava na leitura fiquei ainda mais encantada com a sua história que, aos poucos, se confundia com a história daquele bairro tão meu conhecido. 'Seu' Agostinho viu nascer o Itaim Bibi, ia de bicicleta tomar banho no Pinheiros e viu a Juscelino deixar de ser um areal, que ia até o rio, e se transformar numa das avenidas mais importantes de São Paulo.
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Tempos depois a empresa, para qual eu trabalhava, se mudou da casa ao lado. No dia da mudança arrumei minhas coisas com o coração apertadinho e os olhos marejados de lágrimas. Escrevi-lhe na cartinha de despedida: "O senhor foi a melhor parte desses cinco anos que passei aqui".
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Prometi visitá-lo.
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Acabei mudando de emprego, na correria diária e mil afazeres, acabava sempre adiando a visita.
No final de dezembro finalmente fomos vê-lo. Foi um momento muito agradável. Estávamos todos felizes com o reencontro e conversamos, no velho portão, novamente animados.
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'Seu' Agostinho continua o mesmo senhorzinho excêntrico que sempre ia, de pijamas e chinelinhos, me chamar no escritório para tomar chá com ele. Continua com o mesmo humor inocente, que muito lembra o meu falecido avô. Quando lhe perguntei se iria viajar no feriado, me respondeu:
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-Olha filha, não pretendo viajar, mas na minha idade nunca se sabe quando viajaremos.
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Uma vez mais me diverti muito com o meu velho amigo e senti uma alegria imensa por estar ali, de novo, naquele portão jogando conversa fora.
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Muitas manhãs, quando vou ao trabalho, o vejo de longe - com suas sandálias franciscanas, meias e bermudas - voltando da padaria com um pacotinho de pães.
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Todas as vezes que o vejo agradeço por vê-lo ainda com saúde buscando seu próprio pão e o jornal. Todos os dias eu agradeço por um dia ter encontrado um amigo tão querido e especial.

Eu, ele e o velho portão

a sacadinha

testemunha de deliciosas conversas

O Idealista - Máximo Barro
Biografia de Agostinho Martins Pereira

Quer ler a biografia do 'Seu' Agostinho?
Disponível aqui.