quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Diário de um Ansioso

[Crise de ansiedade!
Ela surge quando você menos espera. Às vezes quando você está até dormindo. Então você desperta sentindo as piores sensações que já experimentou. Mas, antes disso o seu dia tinha começado tranquilo. Você estava ali fazendo suas coisas, resolve tomar o seu café da manhã tranquilamente. Você até percebeu que, naquela manhã, o seu coração estava ligeiramente mais rápido que o normal, mas não dá muita bola: "Pode ser apenas meu sedentarismo", você pensa. E então começa a avalanche.

Sem se dar conta, já está pensando em vários, vários mesmo, assuntos ao mesmo tempo. Está, desde que abriu o olho, pensando e sentindo mil coisas: "aquela conversa meio esquisita que tive ontem com a minha amiga pela manhã quando fui correr (eu preciso conversar direito com ela e explicar que quando disse a palavra esquema, não estava pensando nada demais, juro!)" , "aquelas mensagens visualizadas e não respondidas no meu messenger (o que será que aconteceu? Por que fulano, ciclano e beltrano não me responderam? Será que eu fiz alguma coisa que não gostaram?)", "e a fulana que combinou algo comigo pro final de semana e agora sumiu... nem me responde?". Aquela frase, às vezes uma única palavra, que alguém te disse e lá nas entrelinhas soou como um quêzinho de reprovação e você já está há dois dias martelando naquilo: "Adriana, você precisa parar de se colocar tanto nas histórias todas.", ou "a amiga que disse, no telefone que 'nem tudo tem a ver com você Adriana!'. Ah! essa mesma amiga que está indo embora e você está, desde a semana passada revivendo na sua cabeça todos os momentos que passaram juntas, sofrendo pela distância que vão ficar, sofrendo pelas crianças que não vão mais brincar juntas...".

Enquanto isso, aquelas malditas músicas - do filme, que você assistiu no cinema faz oito dias - ainda estão sendo tocadas em looping na sua cabeça. Bastou abrir o olho de manhã e elas já estavam lá. Não, não uma, mas aquela mistura de: "Bringing on the dancing horses / Headless and all alone / Shiver and say the words / Of every lie you've heard...", "Conga lá conga, conga conga conga", "...e no balanço das horas tudo pode mudar...", "...ela foi dar mamãe, foi dar um serão extra", "...esses humanos que circulam pela cidade ai afora...".

 Tudo, absolutamente tudo, que acontece à sua volta, você percebe, sente e pensa sobre o assunto o tempo todo. Sim! Eu disse o tempo todo. Parece, só parece que você não está prestando atenção na conversa. Na verdade você não apenas está prestando atenção na conversa, mas também em cada mísero detalhe do que está acontecendo entorno: "o passarinho do vizinho - preso coitado - cantando enjaulado", "o tom de voz do seu interlocutor - hoje ele está mais animadinho aqui conversando comigo.", "a linguagem usada, os carros passando na rua, os aviões - que estão passando certinho hoje de 2 em 2 minutos.". "A TV ligada - la no quarto - passando o filme Star Trek, a TV - na sala - passando o jornal - Lula tá chamando Palocci de mentiroso". Tudo isso junto com aquelas músicas do filme - que você ouviu incansavelmente nos anos 80 e que agora, nesse instante,  você está lá nos 80 de novo. Tudo junto com a conversa que tá rolando na mesa do café.

Enquanto responde a pergunta - que nem tinha sido feita - sobre a razão das mulheres culparem outras mulheres - e não os caras - por uma traição. Você está pensando: "puxa tenho que lavar o outro tênis, e tenho que lavar direito - igual lavei ontem - porque da última vez, me confessaram que ele não ficou bem lavado e eu não posso lavar mal alguma coisa.", Isso tudo junto com as milhares, sim milhares, de lembranças que o assunto na pauta principal - na mesa do café - está despertando em você. E você se empolga. Vai falando tudo que vai lembrando sobre o assunto, enquanto pensa no pão que tá comendo: "puxa hoje era pra eu não comer carboidrato, que merda! Como eu vou emagrecer os 6 kgs que preciso, pra baixar a minha glicemia e diminuir minha ansiedade, desse jeito? Ahhh, amanhã eu vou começar a caminhar pra valer, das 6:30 às 7:30 - com ou sem ajuda".

"Sim! mesmo tendo levantado pra responder um mensagem do messenger que você leu e não tinha respondido. Você continua prestando atenção no assunto da mesa. Ao mesmo tempo está pensando em como resolver cada uma das complicações que acha que tem de resolver: "mais tarde vou ligar pra fulana e perguntar se ela tá chateada comigo porque não parei aquele dia pra falar com ela na porta do prédio - deve ser por isso que ela não me respondeu.", "vou liberar a minha amiga, de vez, e ir caminhar, sozinha, um pouco mais cedo - depois eu vejo como fazer isso."...

Sim! você é muito, muito, intensa. Sabe porque chora diante de o Banco de Saint Remy, no Masp? Porque simplesmente você se lembra de cada sentimento que o livro (e os filmes) sobre Van Gogh te despertaram. E quando está lá, olhando o quadro se sente exatamente lá, no sanatório de Saint Remy, na janela do quarto, onde o Van Gogh está trancado, olhando aquele banco junto com ele. Sente a dor que ele sentiu. Naquele instante é capaz de saber como ele se sentiu trancado lá, olhando aquele banco.

Sabe por que chora olhando aquelas fotos, documentos, camas, o próprio museu - aquele espaço onde outrora foi a hospedaria que hospedou aquela gente, etc. - no Museu da Imigração? Quando vê aquelas fotografias, aqueles rostos tristes, confusos. Você está lá junto deles. Naquele instante você é a sua trisavó Armelinda, com 23 anos de idade, em 1896, com o seu bisavô Angelo, aos 2 anos e meio, sentada naquele banco pensando que deixou toda a família lá em Collelongo, do outro lado do mundo, e está ali agora sentada - pode até que seja ela mesma na foto - pensando na incerteza toda daquele momento. Sente a angústia, o medo, as preocupações todas dela, sem saber que rumos sua vida tomará.

Sim, você é extremamente dramática! Ainda hoje, 43 anos depois, chora, pensa e sente a dor, da separação de você e sua irmã. Sente exatamente a mesma angústia que sentiu, quando tinha 2 anos e 10 meses, quando te separaram da sua irmãzinha. Ainda pensa nisso e ainda sente a mesma dor. Sofre por cada situação que gostaria que ela tivesse estado ao seu lado: a infância e as brincadeiras não realizadas, a adolescência não vivida juntas, a juventude, todas as histórias que não dividiram... e pensa nisso - ou coisas parecidas com isso -  quase todos os dias. Você se lembra do seu avô, da sua tia, do seu primo e da sua bisavó Adelaide - que morreu há 35 anos. E sabe exatamente onde estava e o que sentiu em cada momento que esteve com eles. A bisavó Adelaide, por exemplo,  faleceu no dia 14/09/1982 às 15:00 e você estava saindo para o recreio, na aula, ao lado da sua amiga Isabel Cristine, quando sua tia veio te chamar pra ir pra casa e se preparar para ir ao velório dela. Você tinha 10 anos. Ainda sente a mesma dor, o mesmo vazio e tristeza que sentiu quando te contaram o que tinha acontecido pela primeira vez. Da mesma forma que se lembra de todas as outras alegrias e tristezas que passou com cada pessoa importante pra você.

Sim, você pensa nisso tudo, sente isso tudo enquanto o seu interlocutor apenas diz algumas frases ou te conta sobre o documentário do Herzog (não o jornalista da ditadura, mas o cineasta) que ele viu anteontem. (Sim você sabe que falaram disso ontem, mas é só um exemplo de como as coisas funcionam na sua cabeça). E pensa nisso tudo enquanto fala da casa que tinha, lá em Lucas do Rio Verde, e conta as histórias que lembrar relacionadas a isso."

Então, o café da manhã acaba. Cada um vai fazer as suas coisas. E você coloca em ação algumas das coisas, que pensou enquanto tomava seu café, enquanto repassa tudo, absolutamente tudo, o que conversou no café. Pensa no quanto falou, analisa cada detalhe da conversa, percebe o quanto talvez tenha sido deselegante - por falar tanto e ter ouvido pouco, por ter interrompido ou se colocado tanto nos exemplos e histórias e lembranças pessoais - e termina se sentindo extremamente culpada pela conversa não ter sido mais prazerosa para o outro.

Vai passar o dia sentindo, e lembrando de todas as outras vezes que falaram sobre isso. Vai ficar extremamente triste, se sentindo culpada por não ter conseguido controlar isso. Por não ter conseguido sossegar esses pensamentos e sensações que povoam sua mente a cada instante. Então você vai passar o dia inteirinho remoendo sobre essas coisas. Ao mesmo tempo em que corre pra fazer todas as coisas que você tem que fazer e se preocupa intensamente com cada uma delas: "preciso colocar a casa em ordem", "dar comida pro meu filho na hora certa", "prestar atenção em cada detalhe de tudo que faz perto, e com ele, para não influenciá-lo com as suas ansiedades". Ai você já vai começar a se preocupar com tudo o que precisa se concentrar e fazer para que ele não herde essa ansiedade, mais do que os 50% genéticos que você já passou pra ele.

Enquanto faz essas coisas todas, você já está ali pensando, seriamente, em tudo o que leu e pesquisou a respeito de uma educação infantil livre de pressões e outras coisas que poderão causar ansiedade no seu filho. Dai vai começar a lembrar e pensar e sentir, de novo,  tudo o que você descobriu que te tornou assim ansioso.

O título para essa postagem é "diário de um ansioso", mas na verdade isso tudo que foi escrito aqui - incluindo escrever primeiro num caderno e depois passar aqui pro blog - aconteceu das 8:30 até quase 10:00. Esse foi apenas um pedacinho do que pensei e senti na manhã de hoje, em apenas duas horas da minha vida.

Quando chegar o final do dia vai se dar conta de que passou o dia todo, cada segundo do seu tempo preocupada com alguma coisa, enquanto tentava se manter atenta ao presente e em tudo que estava acontecendo a sua volta. E quando a noite chegar, quando menos esperar toda essa energia, todos esses pensamentos e sentimentos vão explodir dentro de si de alguma forma: o coração vai acelerar, as mãos e pernas poderão começar a tremer incontrolavelmente. Vai chorar, sentir uma angústia absurda, sentir os músculos contraírem e naquele instante vai pensar em todas as coisas que aquelas sensações podem causar fisicamente em você. Vai fazer um esforço absurdo para se convencer de que não está morrendo e nem deixando todas as coisas - vai pensar em cada uma delas - que não quer deixar. Quando finalmente conseguir se controlar e dominar um pouco a mente, vai cair exausta, com o corpo extremamente dolorido- como agora - e finalmente dormir.

Esse texto não será revisado. Senão, seria capaz de perder o dia  tentando deixar esse texto o mais perfeito possível. E não revisar, faz parte do processo pessoal de cura. Se vir algum erro, ignore. ]

Só queria que soubesse como eu me sinto na maior parte do meu tempo.

P.S.: já revisei duas vezes =(

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quinta-feira, 20 de abril de 2017


Sim! Eu estou tão cansado, mas pra não dizer que eu não acredito mais em você. Com minhas calças vermelhas, meu casaco de general, cheio de anéis...

A minha avó

"A minha avó
Magrinha, magrinha...
Baixinha, baixinha, quase nenhum cabelo branco, mesmo tendo quase 87 anos.
Faz pão quentinho, bolo com goiabada e sonhos.
Faz casaco de tricô, torra café, sabe fazer sabão caseiro.
Tudo o que ela coloca na terra, nasce e vira flor bonita.
Teve cinco filhos - uma virou anjo.
Teve quatorze netos - um é anjo também.
Tem treze bisnetos - todos saltitantes por ai."
Adriana Mani - 2016