domingo, 13 de janeiro de 2019

Ibira Mon Amour



Todo mundo, ainda que não saiba, tem o seu lugar preferido. O seu lugar preferido no mundo todo, como costumo dizer. O meu, sem a menor sombra de dúvidas, se chama Ibirapuera. Desde a primeira vez que visitei o parque, ainda criança, fiquei encantada com toda imensidão e beleza diante dos meus olhos.

Existe um momento na vida da gente em que, mesmo sem perceber, decidimos as coisas que serão sempre uma parte importante da nossa vida. Naquela tarde distante, no início dos anos 80, em que passei umas poucas horas correndo pelo parque, eu declarei que aquele era o meu canto favorito do mundo. Eu devia ter uns 12 anos. Logo depois fui embora para longe.

Anos mais tarde eu estava de volta. Vim à passeio, mas quando reencontrei o meu paraíso particular, eu já não podia mais viver sem ele. Voltei de vez! Voltei pra ficar (ao menos é isso que eu imagino). E não bastava mais morar na mesma cidade e frequentá-lo de vez em quando. Eu precisava vivê-lo, precisava respirá-lo e estar aqui sempre que quisesse. Há treze anos moro ao lado do parque, que chamo de meu quintal.

Quase todas as manhãs, quando o dia começa despontar, eu calço meu tênis e é lá que eu saúdo o meu novo dia. É para lá que corro sempre que acontece algo comigo. Qualquer coisa! É entre as suas generosas e frondosas árvores e o barulho dos pássaros que eu enxugo as minhas lágrimas, agradeço as felicidades, curo minhas dores e me sinto viva.

Foi para lá que eu corri imediatamente quando apareceu um nódulo no meu seio esquerdo, e eu nem sabia ainda o que era. Foi para o Ibirapuera que eu contei primeiro o meu maior temor naquele momento. 

Dias depois, já com o diagnóstico de "carcinoma ductal invasivo", eu corria novamente para o meu bosque. E olhando aquele verde intenso, a cor mais linda que já vi, eu chorei alto o meu choro mais dolorido, e em seguida decidi que queria continuar viva, que queria continuar levando meu filho todas as tardes para que ele continue crescendo nesse lugar. 

O Ibirinha, como carinhosamente Tomás e eu o chamamos, me acolheu, como sempre. Muitas vezes eu já entrei despedaçada, com o coração apertado, nas suas trilhas e enquanto corria ia me refazendo, me consertando, me remendando e curando.  Com o câncer não foi diferente.

Quando você recebe um diagnóstico complicado desses, é impossível não pensar na efemeridade da sua existência. Quando encarei de frente o fato de que não viverei eternamente e fiz o meu balanço interno, sendo o mais honesta possível comigo mesma, surpreendentemente descobri que poucas coisas ainda me prendem à esse mundo. Eu partiria com saudades de muitos amigos, familiares e pessoas queridas. Muitas mesmo, mas eu estaria pronta para dizer até logo a todos eles - porque eu realmente acredito em um até logo. Mas, não poderia ainda dizer isso ao meu marido e meus filhos. E quando pensei no que mais me faria falta nesse mundo, em todos os lugares onde já estive, onde fui feliz e gosto, de todos eles o único lugar que me fez chorar, por ter que deixá-lo, foi o Parque Ibirapuera. 

Desde que voltei morar em São Paulo e viver ao lado do parque, todos os grandes acontecimentos da minha vida passaram a ter uma relação direta com ele. Depois de sonhar tantos anos com o amor da minha vida, foi ali, no gramado do laguinho, que percebi o quanto estava apaixonada - pela pessoa mais incrível que eu já havia conhecido. Naquele dia eu realizei um desejo que guardava, há muito tempo, de ter um dia inteiro perfeito: com o céu azul sem nenhuma nuvem, a grama verde numa tarde quente. Foi olhando as carpas no jardim japonês, que há dez anos Diego me pediu em casamento. E foi lá, no Ibira, que eu disse o melhor e mais importante sim de toda a minha vida.

No mesmo lugar onde chorei a morte do meu avô e me curo da dor da sua ausência, cinco anos depois, nas mesmas trilhas, me mantive saudável, durante toda a gestação do Tomás.  O Parque foi o primeiro lugar onde eu levei o meu filho, recém nascido, para passear. Ele tinha apenas 15 dias. E ali ele mamou no meu seio, aprendeu a engatinhar, a caminhar, correr, andar de bicicleta e aprenderá a patinar em breve. É onde ele vive as suas aventuras e fantasias mais incríveis. Ele está crescendo tendo a floresta encantada como testemunha. Ele só tem cinco anos, mas já ama o parque tanto quanto eu.

Todas as tardes livres, em que eu pergunto ao Tomás o que ele quer fazer, a sua única e certeira resposta é: "eu quero ir no Ibirinha!". Isso me enche de orgulho e felicidade. O Ibirapuera não é apenas um lugar para nós. Ele é o nosso quintal. É onde o meu filho, apesar de morar em apartamento, numa cidade grande, pode correr livre, tomar banho de chuva, colher frutas no pé, subir em árvores, conhecer pássaros, ver animaizinhos e ter a mesma liberdade que eu tinha na minha infância vivendo numa cidadezinha com menos de dez mil habitantes. 

Tomás é uma das crianças mais felizes que eu já conheci. Tenho certeza que esse pedacinho de chão é o responsável por isso. Ele é dono das tardes mais perfeitas que uma criança poderia ter. Seja com amigos ou sozinho, ele sempre volta, sujo, cansado e intensamente feliz para casa. E eu sei que ele está criando as melhores lembranças que terá na vida.

O mais impressionante é que nós nos sentimentos completamente retribuídos nesse amor. Em cada sombra de árvore num dia quente, em cada brisa fresca que sopra do lago e em cada folha seca caída no chão.

Eu tenho o privilégio imenso de poder escrever e falar sobre isso na "Revista do Ibirapuera". Até isso consegui juntar: o meu lugar preferido no mundo com o que eu mais gosto de fazer nessa vida. Escrever. É uma troca intensa de amor. O Ibirapuera se tornou o meu lar e da minha família.

Eu não sei o que o futuro me reserva. Talvez eu precise, um dia, dizer até breve a este meu lugar tão querido. Mas certamente um pedaço grande do meu coração vai sentir muito. Vai doer demais esse "até logo!" Quando penso em quantas coisas já vivi nesse lugar e em quantas coisas ainda quero viver, uma vida inteira parece tão pouco. Eu quero envelhecer e continuar a caminhar ao lado do meu filho e marido por entre essas árvores e trilhas. Quero poder apresentá-lo a tanta gente ainda, continuar descobrindo coisas novas a cada dia e poder um dia ver meus netos redescobrindo tudo de novo. 

Enquanto eu me curava do câncer o Ibira também me curava e muitas outras coisas. Era onde eu me desesperava e me refazia. Era o único lugar onde eu me sentia à salvo nos piores dias. Era onde recobrava minhas forças durante a quimioterapia e recarregava as baterias para mais um ciclo.  Talvez eu não tivesse me restabelecido tão bem, a cada ciclo, sem esse oásis por perto. Eu ainda estou me recuperando da jornada. É por entre os seus caminhos que eu me silencio e escuto a minha voz interior, onde me encho de coragem e esperança para continuar.

Gratidão é tudo o que define o meu sentimento ao Ibirapuera nesse instante. E espero que todas as pessoas, que um dia estiverem à frente desse lugar, saibam que ele é muito mais que um lugar onde se pode lucrar. Ele simplesmente é a razão de viver de algumas pessoas. Então espero que cuidem bem, preservem-no e não o tratem como apenas mais um meio de se fazer dinheiro. O Ibira é o lugar onde quero estar por toda eternidade quando as minhas cinzas forem tudo o que restar de mim.
(Rua do "Arigatô" - Obrigado)









sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Venci!


Foram 4 meses "dormindo com o inimigo" sem saber;

Foram 8 dias esperando o diagnóstico;

Foram 5 dias esperando por uma vaga no IBCC;

Foram 2 meses de estadiamento;

Foram 26 dias esperando liberação de cirurgia;

Foram 4 linfonodos retirados e 1 mastecto radical;

Foram 2 meses de quimioterapia;

Foram 5 meses de angústia - desde perceber o nódulo até receber o resultado da biópsia final e saber que estava totalmente livre do carcinoma. 

Serão 5 anos de acompanhamento e tamoxifeno, mas estou livre!


É claro que não terminou, ainda estou em tratamento, mas hoje, nesse exato momento estou completamente livre do câncer. Refiz os exames todos após a quimioterapia e não restou nenhum vestígio de células cancerígenas no meu corpo.

Isso não significa que estou isenta de produzir outros tumores. Quem produziu um, pode muito bem produzir outros, mas as possibilidades agora são menores. Estou saudável de novo.

E o que fazer para não produzir novos tumores, novas células cancerígenas?
Não tem como prever isso, mas é possível diminuir muito os riscos:

 - TOME ÁGUA! Tome muita água, isso irá ajudar a eliminar as toxinas do seu corpo e fazer com que o seu organismo funcione adequadamente - são necessários ingerir 2 litros de ÁGUA por dia (chás, sucos e afins não substituem a água pura); 

 - FAÇA EXERCÍCIOS FÍSICOS regularmente - Isso faz com que o seu metabolismo funcione melhor, a sua imunidade se eleve e o seu organismo funcione bem, aumentando sua força, concentração e disposição - uma caminhada de ao menos 30 min por dia por pelo menos 4 vezes na semana é o mínimo necessário;

 - SE ALIMENTE CORRETAMENTE - uma das maiores causas do desenvolvimento de células cancerígenas está relacionada a má alimentação, obesidade e sedentarismo. Coma mais frutas, legumes e verduras, corte ou reduza ao máximo os produtos industrializados e diminua o consumo de carnes, doces e laticínios (isso já é um bom começo);

 - DIMINUA O ESTRESSE - a vida corrida, não parar nunca, se exigir demais e fazer mais do que o corpo aguenta é uma das causas relacionadas ao câncer. Diminua o ritmo, tire um tempo para si, descanse, durma bem e faça mais vezes coisas que lhe dão prazer. 

 - FAÇA O AUTOEXAME E EXAMES periodicamente. A maioria dos tumores é descoberta no autoexame ou exames de rotina. Quanto antes você descobrir um tumor maligno maiores são as chances de cura.

 - SEJA FELIZ - Uma mente sã, como já se sabe, produz um corpo são. 

Por mais que se escute isso tudo o tempo todo, infelizmente muita gente - eu incluso - só acorda para a realidade quando precisa enfrentar o bicho papão cara a cara. E por mais que eu queira gritar aqui para o mundo as minhas experiências e por mais que eu queira ajudar ou fazer com que mais pessoas possam escapar dessa doença que machuca tanto, o que vejo no hospital são salas abarrotadas de pessoas correndo atrás da cura e, por mais triste que isso seja, a maioria delas não irá se curar. A maioria chegou ali tarde demais.

O câncer é uma enfermidade cruel! O meu tumor tinha algo em torno de 8 meses de existência quando o retirei e eu o descobri relativamente cedo. Eu corri imediatamente atrás de tratamento e mesmo assim as consequências foram bem dolorosas: o câncer levou o meu lindo seio esquerdo, levou os meus cabelos volumosos embora,  me fez passar por efeitos colaterais intensos na quimioterapia (que foram apenas 4 ciclos - o mínimo no tratamento). Estou enxergando pior que antes, tive oscilações emocionais intensas (depressão e ansiedades terríveis), ainda sinto dores pelo corpo (levarão uns 6 meses para passar se eu fizer os exercícios físicos direitinho), minhas articulações ainda estão inflamadas... Ainda vou ter que esperar mais 10 meses para reconstruir meu seio (pelo menos mais duas cirurgias) e serão 5 anos em tratamento. Isso, porque descobri no início e corri para a cura. 

Me desculpem por insistir nisso, mas durante um tratamento de câncer algo mexe profundamente com a gente. É como se sentíssemos a obrigação de alertar as pessoas. De dizer à elas coisas que vamos descobrimos enquanto corremos atrás da nossa cura. É como se essa segunda chance, que a gente recebe, estivesse condicionada à ajudar quem está vindo atrás de nós. É algo bem comum - em pessoas que eu conheci nessa caminhada que estão em remissão ou curadas - esse desejo latente de melhorar a vida de quem está passando pelo mesmo ou alertar quem possa estar em risco. 

Eu estou vivendo um momento de libertação. Se passaram 9 meses desde que descobri o nódulo no meu seio. Faz um mês que fiz minha última quimioterapia e faz um dia que passei na médica - que olhou meus exames após a químio -  e ela me disse finalmente que estou curada e as chances de recidiva (no meu caso) são 0%, embora ainda esteja em tratamento. Estou curada, mas a vigilância e cuidados serão eternos. Eu estou fazendo a minha parte: cuidando de mim e alertando vocês que passam por aqui. Cuidem-se! Se amem! Se toquem!

Um beijo e toda minha gratidão.

Dra. Kelly (minha anjinha que me deu boas notícias) e eu

fotos: acervo pessoal

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Fim do Ciclo / Vida Nova!

Recomeçar...

Hoje terminou, finalmente, o ciclo (de 21 dias) da minha última quimioterapia. O câncer foi embora e a parte mais pesada do tratamento terminou. Agora é só me recuperar da batalha, 5 anos de tamoxifeno, acompanhamento médico e me manter fiel à uma vida saudável - pra nunca mais passar por isso outra vez. 



Caminhada com a minha amiga Jane, de leve para recomeçar, foram 5 km. E depois o meu café da manhã super do bem. Assim serão os meus dias. É assim que vou manter o câncer longe da minha vida para sempre.



Toda gratidão que houver nessa vida:
Pela minha segunda chance;
Por estar curada;
Por estar viva;
Por estar bem e com saúde outra vez.

Um beijo carinhoso à todos que me seguem.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A Última Químio / Se Toca Amiga!

Eu já contei aqui, no blog, que o meu câncer foi totalmente retirado na cirurgia. Que não havia nenhum comprometimento de nenhum linfonodo, nenhum órgão e nem dos tecidos. Nem mesmo as margens do tumor estavam comprometidas por células cancerígenas. 

O tumor que eu tive era um nódulo formado por células de gordura, sendo que algumas delas sofreram alterações genéticas pelo excesso de hormônios - estrógenos e progesterona - no meu organismo, transformando-se em células cancerígenas. 

Quando se ouve falar em um tumor, de 2 cm, a gente logo imagina que tem um câncer de 2 cm, mas a coisa não é bem assim. Células cancerígenas se formam dentro de um tumor, rapidamente se proliferam e tomam conta desse tumor, invadem os tecidos - metástase próxima-, entram na corrente sanguínea e se desenvolvem em outros órgãos e partes do corpo - metástases distantes e espalhadas. Eu tive sorte, muita sorte. Descobri em tempo. Muito antes disso tudo acontecer comigo. No meu caso, o tumor era uma massa de gordura contendo em seu interior apenas 16% de células cancerígenas. Essas células ainda estavam encapsuladas dentro do tumor. Isso é um grande motivo para comemorar e o que me faz estar entre uma porcentagem maior de cura. 

O tumor, apesar de médio, ainda estava em estágio inicial. Quando penso nisso agradeço muito por ter me tocado, naquela noite do dia 16/03/2018, e ter encontrado o nódulo. Se eu não tivesse feito isso, se não tivesse percebido logo, a história poderia ser bem diferente hoje. O tratamento, que já foi tão agressivo nessas condições, poderia ter sido muito pior e as chances de cura bem menores ou nulas. Agradeço sempre por ter o hábito de me examinar. Por ter encontrado o nódulo e ter corrido imediatamente atrás de auxílio médico. Isso fez toda a diferença. Não significa que estou totalmente livre - não ainda - mas as minhas chances de estar curada hoje são de 90%. 

Mais do que qualquer exame "preventivo", o ato de me tocar foi essencial para o meu rápido diagnóstico e aumentou muito minhas chances de cura. Eu não era uma pessoa relapsa. Faço anualmente um check up. Fiz uma mamografia em dezembro de 2017 e o nódulo não apareceu no exame. Em março de 2018, ao me tocar encontrei um caroço do tamanho de uma uva. Faço um aqui então alerta: se toque, se examine sempre, não tenha medo do que possa encontrar! Se achar algo suspeito, corra! A maioria dos achados, cerca de 80%, são de origem benigna, mas não tem como saber isso sem examinar o achado. Mamografias, ultrassom, ressonância ou biópsias são necessárias para descartar ou confirmar malignidade. Muitas mulheres têm medo de se examinar, dizem que quem procura acha! Mas outro dia ouvi, de um médico, o complemento dessa frase: "e quem acha, cura!"

Apesar de ter encontrado relativamente cedo o tumor, o protocolo do tratamento envolveu, como sabem, uma mastectomia e quimioterapia adjuvante (preventiva) até agora. Ainda faltam algumas etapas. No fim do mês começo a tomar o tamoxifeno, terei exames de rotina e acompanhamento oncológico por cinco anos. Só então, depois desse tempo, caso não tenha nenhuma intercorrência em relação à doença, terei alta. 

Não foi nada fácil passar por esses quatro ciclos de quimioterapia. Ainda estou me recuperando da última aplicação, que aconteceu no dia 31/10/2018, Mas me sentiria até envergonhada de reclamar, sabendo que muitas pessoas, muitas mesmo, passam por tratamento muito mais longos e dolorosos do que o meu. Conheci pessoas incríveis - lutando com muita bravura e coragem - com histórias complicadíssimas. Passar por uma quimioterapia mexe com você por inteiro. Só quem passa por isso sabe do que estou falando. Não tem nem como explicar, só sabe quem passa por isso. Mas, tudo o que se vive durante um tratamento oncológico faz de você uma pessoa muito diferente do que era antes. Ninguém passa por isso tudo e permanece o mesmo.


Além de lidar com o medo e o estigma de morte o tempo todo - se não a sua, a de pessoas que você conhece e se afeiçoa -, você ainda precisa lidar com todas as transformações que estão acontecendo no seu corpo, na sua vida e no seu emocional.

Durante esses seis meses vivi uma avalanche de emoções. Você precisa se reabastecer de coragem e forças o tempo todo. E você conhece o melhor e o pior das pessoas. Acho que as coisas acabam ficando mais claras. Você passa a enxergar tudo com muito mais honestidade e todos também acabam se mostrando como realmente são. Essa é a parte boa de tudo. Sempre gostei de saber a verdade, por mais cruel que ela seja. Se muitas coisas ruins acabam vindo à tona, muita coisa boa também surge. Descobri que tinha pessoas inacreditavelmente maravilhosas à minha volta e que o mundo ainda é um lugar de pessoas boas na sua maioria. Estreitei relações que ficarão por toda eternidade. Chorei e ri com pessoas que amo e que me amam. Fiz amigos e reencontrei pessoas lindas que estavam distantes. Eu nem vou agradecer individualmente porque esse texto não teria mais fim. Eles todos sabem o quanto estou grata. OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADA!

A minha recuperação desse último ciclo está sendo bem mais tranquila. Não estou mais ansiosa e não tive nenhum efeito colateral debilitante. Acho que o fato de saber que acabou me deu um gás extra. A medicação ainda vai levar cerca de seis meses para ser totalmente eliminada do meu organismo. Algumas sequelas serão inevitáveis. Acho que nunca mais enxergarei bem como antes, já que a presbiopia - que aconteceria naturalmente - foi acelerada pela químio. Ando muito esquecida, ainda sinto dores no corpo e estou mais cansada que o normal, mas a deprê e ansiedade - que mais estavam me incomodando muito - foram embora. Espero que para sempre! Agora estou me empenhando em recuperar meu corpo, minha energia e os meus cabelinhos - que já começaram a nascer, bem loirinhos - uma graça! Daqui alguns dias vou recomeçar a dieta anterior ao tratamento, continuar reforçando a minha imunidade, voltar a correr e fazer exercícios físicos. É a única forma de dizer adeus definitivamente para o câncer.

Dia 22 começo a tomar o tamoxifeno. Ainda não sei como vai ser, mas acredito que será bem tranquilo. Consegui passar relativamente bem pela quimioterapia - os efeitos emocionais foram os piores. Apesar de ter ficado um pouco inchada em alguns períodos, engordei apenas 1,5 kg durante o tratamento. Isso é algo realmente importante, pois é bastante comum engordar muito durante a químio. Vi relatos de pessoas que engordaram  mais de 18 kg em apenas quatro ciclos. Acho que a alimentação que adotei ajudou nisso também. Durante os ciclos consegui recuperar, em apenas 15 dias, 100% das minhas plaquetas e de todo o sistema imunológico. Não tive nenhuma infecção - que também é bastante comum - e poucos episódios desconfortáveis ou de fraqueza. 

No penúltimo ciclo fiz  um teste para ver a eficácia da minha alimentação. Durante o ciclo inteiro não tomei o suco para elevar a imunidade - tomava apenas os suplementos - e os resultados foram impressionantes. Com o suco a quantidade de células brancas iam de 3 mil (no auge da baixa na químio) para 9 mil (quinze dias depois). Sem o suco foram de 3 mil para apenas 5 mil. Todo o exame deu alterações significativas (com e sem os sucos). Isso só prova o que a gente já ta cansado de saber: uma boa alimentação é a chave para uma vida saudável.

Muita gente tem me perguntando sobre minha alimentação. Quero escrever sobre isso, mas durante o processo percebi a grande responsabilidade que isso implica. Não posso simplesmente escrever receitas de sucos e falar da dieta que tenho feito, porque para chegar à alimentação adequada precisei fazer inúmeros exames de sangue -  e então saber o que o meu corpo produzia e o que não produzia - para saber o que eu precisava repor ou evitar.  Respondi um questionário gigantesco para a nutricionista e tudo o que pesquisei e descobri foi em torno do que iria funcionar para mim. Tudo foi levado em conta: meu biotipo, o tipo de tumor que tive, o tratamento, a medicação e a recuperação que eu precisava. Não é simplesmente uma fórmula mágica que vai funcionar para todo mundo. É uma responsabilidade muito grande, então preciso pensar muito bem no que vou escrever aqui.O que já posso adiantar é que cortar produtos industrializados e fazer uma alimentação mais balanceada vai ajudar qualquer pessoa se manter mais saudável.

Ainda tenho muito o que falar aqui sobre o tratamento e toda essa experiência que estou vivendo, mas quero fazer isso com calma para poder realmente ajudar, de alguma forma, quem esteja precisando dessas informações. Agora que a minha vida está retomando o seu curso eu tenho muitas pendências para resolver, muitas coisas que ficaram suspensas e que preciso fazer ainda, mas assim que possível volto aqui para contar mais coisas para vocês.

Obrigada, por me fazerem companhia nessa jornada.
Deixo aqui a mesma mensagem que escrevi no mural do IBCC no dia da minha última químio:

"Queridos Companheiros de Jornada! Hoje faço a minha última químio e queria dizer à vocês que estão começando seus tratamentos que NÃO DESISTAM! Por mais difícil ou complicado que sejam alguns desses dias, essa é a sua chance de CURA, de tratamento e talvez de melhorar a sua vida pós câncer. Eu sei bem que não é algo fácil, mas VAI PASSAR! Por mais longo e doloroso que seja, sempre há esperança e sempre há uma nova chance. Eu acordo TODOS os dias pensando: "É hoje que vão descobrir a cura definitiva de todos os cânceres!". E um dia será! Um abraço afetuoso - 31/10/2018 "






segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Na estrada

♪♫
Ela vai voltar, vai chegar
E SE DEMORAR, I´LL WAIT FOR YOU!!!
Ela vem, e ninguém mais bela
Baby, i wanna be yours tonight
Sem botão, no tempo
No topo, no chão
Em cada escada
A caminhada
A pé
De caminhão...
Seu horário nunca é cedo
Aonde estou?
E quando escondo
A minha olheira
É pra colher amor...
Sala, sem ela, tem janela
Inclino, em cerca de atenção
Ela vem, e ninguém
Mas ela vem
Em minha direção
Sala, sem ela tem
Janela inclino
Em cerca de atenção
ELA VEM E NINGUÉM MAIS BELA
VEM EM MINHA DIREÇÃO.
Sem botão, no tempo
No topo, no chão
Em cada escada
A caminhada
De caminhão...
Seu horário nunca é cedo
Aonde estou?
E QUANDO ESCONDO
A MINHA OLHEIRA
É pra colher amor...
Sala, sem ela, tem janela
Inclino, em cerca de atenção
Ela vem, e ninguém
Mas ela vem
Em minha direção
Sala, sem ela tem
Janela inclino
Em cerca de atenção
Ela vem, e ninguém
Mais bela vem
Em minha direção...
♪♫
na estrada - marisa

Empatia

Hoje, no hospital, quando abracei a Cristina (uma mulher que eu nunca tinha visto na vida antes) que saiu da sala de ultrassom com os olhos rasos d`água, trazendo na mão o diagnóstico de um nódulo (de 2 cm) na mama esquerda, sem sequer saber ainda se é um tumor maligno ou não. Eu chorei! E ela me disse: "você tá chorando! Nem eu estou chorando ainda, nós acabamos de nos conhecer..." e eu respondi: "mas eu sei exatamente o que você está sentindo".

Isso, se chama empatia.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O sétimo dia...

O sétimo dia após a quimioterapia é aquele em que o sol volta a brilhar pra mim. É o dia em que recomeço a batalha para aumentar minhas plaquetas e levantar o meu sistema imunológico. É quando vejo o milagre da alimentação correta me trazer de volta à vida.

As olheiras são de fazer inveja a qualquer ursinho panda, ainda há um resquício daquela depressãozinha que não quer largar o osso, mas é quando a esperança volta a dominar. E é quando percebo como tudo está relacionado: imunidade baixa = depressão = efeitos colaterais mais exacerbados = posts sombrios.  E qual o segredo para reverter essa situação? Aumentar a imunidade. Aumentou a imunidade a vida começa a ter mais cores, mais sabores e alegrias. Os dias cruéis começam a ficar para trás e até a próxima aplicação terei quinze dias de trégua.

A minha médica explicou que a quimioterapia (no meu caso, ao menos) funciona assim: do momento da aplicação, até três dias depois, tenho algumas pequenas reações alérgicas - e isso faz os três primeiros dias serem meio chatinhos porque tomo antialérgicos bem fortes que me deixam meio piradinha, sonolenta, irritada e cansada. É quando acontece de eu ficar com manchas avermelhadas na pele, aquelas agulhadas (que parece que você rolou na grama molhada pelo lado de dentro do seu corpo), quando fico com aquele gosto amargo e metálico na boca e outras coisinhas que já contei pra vocês no post anterior. Do terceiro ao sétimo dia é quando a droga faz efeito e derruba as suas plaquetas lá em baixo. Não apenas as plaquetas, mas você se sente completamente nocauteada. O pior dia para mim é o quarto dia. É quando me sinto muito fraca, sem vontade de fazer nada, sinto o mundo desabando e fico muito deprimida (e acabo escrevendo os posts mais tristinhos desse blog). Mas, essa é uma depressão que tem causas físicas e tempo curto de duração. A quimio acaba também com a sua produção dos "hormônios da felicidade": a endorfina, a serotonina, a dopamina, a oxitocina e a anandamida. E sem esses hormônios trabalhando no seu corpo até a pessoa mais feliz do mundo vai ficar pra baixo e passar a perceber todo o cinza a seu redor. Passado o efeito da droga a gente volta a produzí-los todos e volta a achar a vida bela.

No meu caso, no quinto dia é quando eu começo lentamente a me recuperar. No sétimo já acordo animada, feliz de novo e cheia de planos. Até me esqueço do quanto os dias anteriores foram tão pesados e exaustivos. É quando então as pessoas, que seguem esse meu blog, devem achar que eu sou bipolar ou bem maluca mesmo. É quando eu começo a postar as coisas que me animam, a dividir minhas descobertas e paro de choramingar pelos cantos. Volto a me achar bonita, a gostar de quem eu sou e volto a acreditar que sou abençoada e que eu tenho muita sorte. É quando eu volto a enxergar todas as coisas boas e transformações positivas o câncer trouxe pra mim.

Eu devia ter contado isso antes para vocês, mas só agora, depois de três ciclos de docetaxel, foi que eu comecei a compreender melhor como as coisas estão funcionando. Dito isso, vocês podem continuar seguindo o blog sem achar que a pobrecita da Dri tá ficando doida de pedra. Daqui treze dias começa tudo de novo: aplicação do medicamento, três dias com reações alérgicas, mais quatro dias de efeitos colaterais e depois o sol vai brilhar de vez e definitivamente... ou até eu começar o tamoxifeno no dia 21/11/2018 - esse ainda só sei de ouvir falar, mas como ele vai antecipar a minha menopausa, já imagino que vem um turbilhão de emoções por ai. Depois eu conto como será.

Obrigada por virem aqui,  mesmo que vocês não comentem... Ah! eu vejo a quantidade enorme de pessoas que passam por aqui em cada post. OBRIGADA!
Muito, muito, muito obrigada!

Beijo!

Foto: acervo pessoal