sábado, 9 de abril de 2011

Joanetes


Olhando para as minhas joanetes, esse carocinho que anda crescendo ao lado dos dedões dos meus pés, me dei conta de que isso só pode significar uma coisa: sou uma legítima Mani.
Não me lembro de muitas coisas sobre a minha bisavó Adelaide, mãe do meu avô materno. Ela faleceu quando eu tinha apenas dez anos, mas uma das lembranças mais nítidas que tenho dela é das suas Alpergatas de tecido velhinha toda rasgadinha dos lados.
Nós chamávamos errôneamente o calçado da minha bisavó de precatinha. O problema do calçado não era a idade dele, mas o volume enorme nas laterais que forçavam o tecido e, por mais novo que fosse, logo estava rasgado. Os pés do meu avô eram idênticos ao da mãe dele. Na velhice, também ele passou a gostar de usar as tais precatinhas velhas como as de sua mãe.
Ainda criança, lembro-me da minha tia se queixando daqueles ossinhos doloridos que cresciam ao lado dos seus dedões tirando-lhe toda a elegância das belas sandálias que ela usava.
Minha Noninha Bisa se foi há muito tempo, meu avô e minha tia, mais recentemente, também se foram. Mas, me deixaram como herança esses ossinhos volumosos que crescem nos meus pés.
Eles doem, é verdade. Deixam meus pés com um aspecto ainda mais horroroso, além de espalhado é largo, mas as minhas joanetes são a marquinha deles que crescem em mim.
Ao contrário da minha mãe e tias, eu amo minhas joanetes. Cada vez que as percebo me lembro de quem sou. Elas são a prova concreta do mundo à qual pertenço.
Mais do que meu registro de nascimento, são as minhas joanetes a evidência de que realmente sou uma Mani.
Ainda não estou na fase das alpargatas, mas penso se já não devia começar a providenciar um estoque delas.



quarta-feira, 16 de março de 2011

Thaís



Nasceu de sete meses, a conheci dois dias depois.
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Meu tio chegou com ela e me mandou sentar direito no sofá, depois a colocou no meu colo.
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Desde então somos amigas, irmãs... primas!
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Já rimos e choramos juntas até não podermos mais...
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Passamos noites em claro e dias inteiros conversando, fazendo planos ou fazendo nada.
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Eu guardo os segredos dela e ela os meus
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Já me deu um afilhado e agora será mãe de novo.
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Já moramos juntas duas vezes... nunca brigamos!
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Sinto saudades da comidinha gostosa que ela faz...

Sinto falta de tê-la sempre por perto...

Melhor prima do mundo inteiro, melhor amiga... melhor abraço!


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Bia


Cabelos louros ao vento, já nasceu linda!
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Inteligente, batalhadora, tem sempre as melhores respostas.
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É o amor da minha vida, filha querida, a única
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Primeira bisnetinha do vô Domingos
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Foi morar sozinha lá longe... foi aprender a crescer...
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Fala inglês fluente, é professora... a mais linda de todas!
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Gosta de Johny Cash, de Smiths e Nietzsche
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Adora maquiagem, está sempre de baton...
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Amo muito... por toda eternidade.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

39...

...coisas sobre fazer sobre fazer 39 anos:

1 - Você se examina e percebe que fez 39... mas a sensação é de 29;
2 - Agradece por estar mais feliz, mais madura, mais intensa... mais viva!
3 - Ganhei mais mimos e carinhos do que nunca;
4 - Percebe que já realizou muito, muitos sonhos;
5 - E que sempre tem mais sonhos para realizar...
6 - Aos 39 estou pensando em ser mãe de novo;
7 - Que finalmente depois de 27 anos vai ler o livro Gina que o seu amor encontrou e te deu;
8 - Vai se impressionar com a quantidade de felicitações e telefonemas que vai receber...
9 - Seu amigo mais antigo "Thaís" e o mais novo "Flaviano" vão te ligar...
10 - Vai se emocionar várias vezes...
11 - É o último ano que vai ter um 3 na frente do número da sua idade...
12 - Vai perder o medo de ficar mais velha...
13 - Vai ganhar um presente e um jantar incrível da amiga Nelma que estuda com você há 5 anos;
14 - Vai ganhar flores, bombons, filmes, livro, chocolates, toneladas de beijos do melhor mariddo do mundo inteiro...
15 - Vai ser mimada pelos colegas de trabalho...
16 - Os amigos vão se organizar p/ comemorar com você...
17 - Vai se sentir vrdadeiramente amada...
18 - Vai receber carinho da família...
19 - Vai se sentir realizada por ter conseguido fazer algumas coisas importantes antes dos 40.
20 - Vai estar feliz por ter reencontrado velhos amigos;
21 - Por ter escrito um livro;
22 - Por ter comprado o carro;
23 - Por ter passado momentos incríveis com o seu amor;
24 - Por ter encontrado finalmente o amor da sua vida...
25 - Por ter voltado a dançar sem medo... total liberdade;
26 - Por estar na ativa... por ter um trabalho;
27 - Um lar...
28 - Uma fé...
29 - Por acreditar no futuro...
30 - Nos sonhos...
31 - No amor...
32 - Por ter vivido experiências realmente maravilhosas com pessoas queridas;
33 - Por não ter mais arrependimentos;
34 - Por ter encontrado equilíbrio...
35 - Determinação...
36 - Por ter coragem!
37 - Por ser grata...
38 - Por ter tanto a agradecer...
39 - Por se sentir tão viva e feliz!


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meu Querido Cineasta

Outro dia, Diego e eu, visitamos um amigo querido: 'Seu' Agostinho Martins Pereira. O 'Seu' Agostinho é um senhorzinho de 87 anos que durante quase cinco anos foi meu vizinho, no sobradinho da Rua Caracas onde eu trabalhava.

Por cinco anos, quase todas as tardes, eu fugia do trabalho para papear no portão ou tomar chá com o meu vizinho querido.

Nos conhecemos por causa de um gatinho. Um belíssimo gato de pelos cinza. Enquanto a filha passeava por Londres e Paris ele tomava conta do gatinho.

Numa tarde quente, enquanto eu imprimia uns documentos, o gato fugiu e entrou sorrateiro na minha sala. Apaixonada por gatos tratei logo de oferecer um pires de leite ao bichano. Minutos depois, um senhorzinho bastante interessante aparece procurando pelo gatinho. Ali mesmo engatamos uma conversa que durou a tarde toda.
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Na manhã seguinte lá estava o vizinho, na sacadinha da sua casa, me acenando e mandando beijos. Desse dia em diante passou a fazer isso quase todas as manhãs. Passei a ser recebida, ao chegar ao trabalho, pelo meu adorável amigo com sonoros: "Bongiorno Principesa" ou "Bon Jour ma Cherrie!"
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Eu me acostumei rápido com seus acenos e beijos matinais. Durante as tardes, pouco antes do final do expediente, fazíamos um pequeno sarau: falávamos de poesias, de lugares, filmes ou coisas da vida. Algumas vezes tomávamos chá.
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Só depois de uns dois ou três anos de amizade descobri quem era de verdade o meu vizinho querido. Entre uma conversa e outra contei para ele que estava revendo os velhos filmes da Dercy Gonçalves. Quase cai dura quando ele humildemente contou:
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-Sou um cineasta aposentado. Trabalhei na Companhia de Cinema Vera Cruz, você já ouviu falar? Dirigi nove filmes, entre eles 'Apassionata', filme que escrevi para a Tônia Carrero. Foi também o primeiro filme que o Paulo Autran atuou.
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E eu ali perplexa:
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-Como é que é? O Sr. fez o que?
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E ele:
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-Sou cineasta e fiz nove filmes. Já assistiu o gato de Madame do Mazzaroppi? Eu dirigi alguns filmes dele.
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Nesse dia ficamos papeando no velho portão enferrujado até anoitecer. Ao chegar em casa fui direto para a Internet e digitei: 'Agostinho Martins Pereira'. Não encontrei muita coisa sobre o anônimo descobridor do Mazzaroppi.
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O fato dele ser um dos mais importantes cineastas da época gloriosa do cinema brasileiro, não alterou em nada nossa rotina. Continuamos a falar sobre banalidades e gatos.
Fui sua vizinha por mais dois anos. Tempo suficiente para conhecer e me casar com outro amante do cinema. Diego quer, mais que tudo, ser cineasta. Quando lhe contei sobre meu amigo famoso ele ficou empolgadíssimo. No mesmo dia me fez levá-lo para conhecer 'Seu' Agostinho. Foi paixão à primeira vista.
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O cineasta estava de bom humor. Fez piada com as nossas alianças - feitas de casca de coco pelos Índios Zorós do mato Grosso. Ele também gostou do Diego, mas não queria, de jeito algum, falar sobre cinema. Talvez alguma mágoa ainda lhe machuque o coração.
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Alguns dias depois entenderíamos melhor sua reserva. O Diego trabalha como indicador de filmes e, desde que conheceu 'Seu' Agostinho, passou a pesquisar sobre ele. Numa tarde conversando com o nosso herói me contou que haviam lançado um livro com a biografia dele. Mais do que depressa compramos o livro.
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Descobrimos que a vida do nosso amigo era infinitamente mais interessante do que poderíamos supor. ele foi simplesmente um dos fundadores da antiga Companhia de Cinema Vera Cruz. Sua história de vida é fascinante.
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Meu carinho por aquele senhorzinho que cresceu no Itaim Bibi - quando Itaim era ainda um bairro esquecido da periferia de são Paulo na época - só fez aumentar. Ele foi um garoto muito pobre que vendia bananas para comprar cadernos e crescia obstinado a se tornar cineasta.
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Conforme avançava na leitura fiquei ainda mais encantada com a sua história que, aos poucos, se confundia com a história daquele bairro tão meu conhecido. 'Seu' Agostinho viu nascer o Itaim Bibi, ia de bicicleta tomar banho no Pinheiros e viu a Juscelino deixar de ser um areal, que ia até o rio, e se transformar numa das avenidas mais importantes de São Paulo.
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Tempos depois a empresa, para qual eu trabalhava, se mudou da casa ao lado. No dia da mudança arrumei minhas coisas com o coração apertadinho e os olhos marejados de lágrimas. Escrevi-lhe na cartinha de despedida: "O senhor foi a melhor parte desses cinco anos que passei aqui".
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Prometi visitá-lo.
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Acabei mudando de emprego, na correria diária e mil afazeres, acabava sempre adiando a visita.
No final de dezembro finalmente fomos vê-lo. Foi um momento muito agradável. Estávamos todos felizes com o reencontro e conversamos, no velho portão, novamente animados.
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'Seu' Agostinho continua o mesmo senhorzinho excêntrico que sempre ia, de pijamas e chinelinhos, me chamar no escritório para tomar chá com ele. Continua com o mesmo humor inocente, que muito lembra o meu falecido avô. Quando lhe perguntei se iria viajar no feriado, me respondeu:
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-Olha filha, não pretendo viajar, mas na minha idade nunca se sabe quando viajaremos.
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Uma vez mais me diverti muito com o meu velho amigo e senti uma alegria imensa por estar ali, de novo, naquele portão jogando conversa fora.
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Muitas manhãs, quando vou ao trabalho, o vejo de longe - com suas sandálias franciscanas, meias e bermudas - voltando da padaria com um pacotinho de pães.
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Todas as vezes que o vejo agradeço por vê-lo ainda com saúde buscando seu próprio pão e o jornal. Todos os dias eu agradeço por um dia ter encontrado um amigo tão querido e especial.

Eu, ele e o velho portão
a sacadinha

testemunha de deliciosas conversas

O Idealista - Máximo Barro
Biografia de Agostinho Martins Pereira

Quer ler a biografia do 'Seu' Agostinho?
Disponível aqui.

Fotos: Adriana Mani e Divulgação Imprensa Oficial

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Os Varredores e Meu Tio

Impossível olhar o quadro Os Varredores - 1935 do artista brasileiro Carlos Prado e não se lembrar do filme Meu Tio - 1958 do Jacques Tati.
Essa foi a minha gostosa descoberta nesse sete de setembro chuvoso.
O MASP estava lotado por causa do feriado e eu ali quase ofendida pelo descaso com que um senhor passou ao lado de O Banco de Saint Remy. Falava alto e, pior, ignorando completamente a grandeza daquele meu quadro preferido dentre todos no mundo inteiro.
Poderia ter me irritado muito não tivesse visto, logo ali ao lado da Ponte de Monet, Os Varredores. Fui imediatamente atraída pelo quadro e em dois segundos vi o Sr. Hulot na minha frente. Lá estava ele com sua capa bege, seu chapéu e o guarda-chuva. Até mesmo o cabo da vassoura de um dos varredores me lembrou o inseparável cachimbo do Sr. Hulot.
Fiquei maravilhada com a descoberta.
Coincidência?
Tiveram as mesmas influências?
Será que Tati um dia se deparou com esse quadro e - como Jeunet que um dia olhou um Juarez Machado e levou suas cores para Amèlie Poulain - resolveu fazer de Os Varredores pano de fundo de seu filme?
Infelizmente não encontrei essa resposta, mas algumas coisas de fato os dois - Prado e Tati - tiveram em comum: ambos nasceram em 1908, estavam na Europa na década de 1920, tinham temperamento difícil, eram arredios e muito, muito talentosos.
Para minha tristeza não encontrei muita informação sobre Carlos Prado. Apesar da sua enorme contribuição ao modernismo brasileiro, o artista isolou-se em Bragança Paulista e como fez poucas exposições, acabou esquecido. Pouco encontrei sobre ele clicando no Google, mas vou continuar pesquisando. Caso alguém tenha alguma dica, será muito bem vinda.
De qualquer forma, é um delicioso exercício comparar o quadro com o filme. Vejam:

O quadro

O ambiente do filme


Um dos varredores conversando

Sr. Hulot conversa com o varredor no filme

As linhas retas da árvore do quadro

As linhas retas das plantas no filme

Detalhe da calçada no quadro

A calçada do filme

A presença do cachorrinho no quadro

Os cãezinhos no filme
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Se você estiver em São Paulo, não deixe de passar no Masp para conferir o talento de Carlos Prado. Também não deixe de ver o maravilhoso  filme Meu Tio.



Fonte de Pesquisa:
Jacques Tati

Fotos: Divulgação Internet - Filme Meu Tio e Masp - Museu de Arte de São Paulo

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O vestidinho amarelo

Minha tia Isa ia se casar. Alguns dias antes fomos – minha mãe, minhas tias e eu – numa boutique em Iporã. Coisa importante comprávamos sempre na cidade vizinha, um pouco maior, onde haviam lojas mais modernas. Nesse dia minha mãe me comprou um lindo vestido amarelo de tricô. Meu vestidinho era todo bordado na pala e na gola. Tinha mangas compridas e pregas que saiam logo abaixo do peito.
Junto com o vestido, minha mãe comprou uma meia calça rendada e um par de sapatos brancos, estilo boneca, com fivelas. Eu me apaixonei imediatamente pelo vestidinho amarelo. Já queria ir para casa vestida com minha roupa nova, mas minha mãe não deixou.
O casamento só aconteceria dali a quinze dias. Eu tinha cinco anos e quinze dias era muito tempo de espera. Todos os dias eu pedia para minha mãe me deixar usar o vestido novo e ela sempre dava a mesma resposta dura:
-Não! Só no dia do casamento.
Eu fui ficando triste e amuada. De triste fiquei doente. Até febre eu tive.
Minha mãe me deu remédio, contou histórias, me agradou de todo modo, mas nada adiantou. Eu continuava febril e amuada. Quando minha mãe perguntava a razão de tanta tristeza eu só respondia que queria usar meu vestidinho.
Preocupada minha mãe não teve escolha. Dez dias antes do casamento ela se rendeu. Me deu banho, passou talco, colocou-me a meia calça, o vestido e os sapatos novos. Penteou os meus cabelos e fez uma trança. Depois me pegou no colo, chamou minha tia e então saímos. Fomos até a quitanda do seu Júlio e compramos maçãs frescas.
Quando minha mãe se cansava me passava para minha tia e vice versa. Usei a roupa nova, mas não pisei no chão em momento algum. No dia seguinte, milagrosamente sarei.
Confesso que fiquei meio frustrada de não ter podido correr livremente pelo quintal com o meu vestido novo e também porque no dia do casamento eu fui a única que não estava com uma roupa novinha em folha.
Quando eu era criança era bastante comum a molecada adoecer quando queria muito alguma coisa. Fiquei com febre por causa de queijo prato e chocolate. Meu irmão, bem mais esperto, adoeceu por causa de uma bicicross e um ferrorama.
Com o tempo os pais ficaram mais espertos.
Ah! Tá doente é? Então vamos na farmácia aplicar uma injeção para curar essa febre.
A criançada sarava rapidinho.