quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Elas fizeram pra mim!

Quem faz quimioterapia sabe o quanto são importantes os cuidados pré e pós quimio.  Uma das principais recomendações é a de evitar a todo custo ter alguma infecção. E para nossa proteção e prevenção é preciso adotar esse visual de "Michael Jackson de enfermaria", usando máscaras para evitar qualquer contágio de algum vírus.

Só que as sementes do amor e do bem, estão espalhadas pelo mundo afora. A minha recente descoberta foi o "Projeto: Eu Faço Pra Você". Trata-se de uma equipe, linda, de voluntárias espalhadas pelo mundo que confeccionam máscaras muito fofas e enviam gratuitamente aos pacientes que se cadastram na página deles.

Eu mandei um e-mail para eles no último dia 28/08/2018 e fiquei impressionada, pois uma semana depois eu estava recebendo, no conforto do meu lar, essas lindas "fofoletes" (apelido carinhoso que dei a elas). São feitas com muito carinho e o pacotinho chega impregnado dessa energia tão boa que elas colocam no trabalho que fazem.

Eu fiquei imensamente grata à Andrea, a querida voluntaria de Bauru - SP, que rapidamente atendeu o meu pedido. Agora vou sair por ai muito mais estilosa. 

Fica o desejo imenso de retribuir todo esse carinho recebido. Então convido a todos, que puderem e quiserem, colaborar com esse lindo gesto:

O projeto Eu Faço Pra Você, é composto por voluntárias em todo o mundo  que irá enviar máscaras para pacientes oncológicos (ou outras enfermidades).

As máscaras são inteiramente GRATUITAS e se você quiser fazer alguma doação de material ou máscaras, ou ainda se cadastrar para voluntariado, favor enviar para elas no seguinte endereço:

Nome: Andreia Mesti
Rua Darci Dainese Roman, 633 - Condomínio Damha II
CEP: 19053-757 - Presidente Prudente - SP



Toda gratidão que houver nessa vida!

Imagens: Adriana Mani / logo divulgação do projeto

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Docetaxel, meu doce veneno!


Menos uma! É assim que as 'amigas de peito' que estão a mais tempo nessa batalha preferem contar. No último dia 29/08/18 fiz a minha primeira quimioterapia. A aplicação foi bem tranquila. Cheguei no hospital bem ansiosa, por mais que tivesse lido à respeito e me preparado bem não tem como não ficar um pouco nervosa. O tal medo do desconhecido. Diego estava do meu lado segurando minha mão.

Enquanto aguardava minha vez de ir para a sala de aplicações, conheci uma pessoa linda: Maria Helena. Ela já está há um bom tempo nessa caminhada e, mesmo ela estando visivelmente frágil, foi ela quem me acalmou, explicou como seria e me deu ótimas dicas. A Lena (como é chamada) tem um câncer de mama em grau bastante avançado, já fez 4 químios vermelhas (a mais forte de todas) e está na 3 terceira de uma série de 16 brancas, na tentativa de diminuir o tumor para então fazer a cirurgia. Conversamos bastante e me senti profundamente grata por tê-la conhecido. 

A aplicação foi bem tranquila. Não ardeu, não doeu, nenhuma reação imediata. Foi mesmo como tomar soro. Não fosse o meu nervosismo antes de iniciar teria sido ainda mais tranquilo. A infusão demorou 2h. Foram 15 minutos da medicação inicial: antialérgico e antienjoo e depois Docetaxel e na sequência Ciclofosfamina. A infusão terminou às 18h e não tive nenhuma intercorrência até a manhã seguinte.

Na verdade, até agora, cinco dias depois, as minhas reações foram até bastante leves: rubor na face e colo no primeiro dia, um pouco de cansaço, leves enjoos, leve dor de cabeça e com exceção de ontem que estive bem indisposta durante o dia, nada que me tirasse da rotina ou que me incomodasse muito. Ainda é muito cedo para saber de todas as reações: se os cabelos vão cair, se terei anemia, se vou ter fadiga, mas acho que ter me preparado bem para enfrentar tudo tem se mostrado eficiente. Vamos ver o que acontecerá nos próximos dias. Espero que os ventos continuem favoráveis.

Ontem passei o dia bem indisposta, com dores no corpo como se estivesse para ficar bem gripada. Tomei bastante água, reforcei a alimentação e me forcei a fazer uma caminhada no final do dia e, apesar das olheiras horrorosas que comecei a ostentar, eu melhorei consideravelmente depois da caminhada e hoje amanheci ótima. É claro que estou mais lenta, não estou abusando da boa sorte. Não dá pra levar a mesma rotina louca e acelerada que é a minha vida, mas estou conseguindo manter uma vida praticamente normal. Acho até que vou conseguir entregar logo algumas encomendas de crochet que estou devendo. 

Eu estou seguindo rigorosamente todos os conselhos da minha oncologista e de nutrição. Existem alimentos que pioram os quadros de reações quimioterápicas, então não estou comendo absolutamente nada que possa causar inflamações e estou fazendo uma assepsia invejável, diria minha boca está mais limpa que uma sala de cirurgias. São muitos os cuidados diários: medicação, higienização de tudo, caminhada, descanso, ingestão de 4 litros de água, mas estou dando conta de seguir tudo direitinho. São muitas recomendações, muitas mesmo: não pode fazer unhas, cabelo, depilação, tem que usar  hidratante e filtro solar até dentro de casa, porém a mais dolorosa dentre todas: "não pode comer comida japonesa!". Diego me deu uma farra gastronômica japonesa de despedida então até agora ainda não tá fazendo falta.

Eu preferi, dessa vez, não dar ouvidos ao Doctor Google, então não estou esperando pelas milhares de reações horrorosas atribuídas ao Docetaxel. Prefiro pensar nessa medicação como um doce veneno que está me deixando definitivamente livre e segura. Fecho os meus olhos e imagino o medicamento percorrendo cada uma das minhas células e fazendo uma faxina, me deixando limpa, livre e saudável. Então me sinto imensamente grata por ter essa oportunidade de ser tratada tão bem num lugar maravilhoso como o IBCC, que não desiste de nenhum de seus pacientes. A cada história de vida e superação que eu ouço, mais gratidão eu tenho por essa equipe maravilhosa que cuida de mim com tanto carinho.

Bem, essas foram as minhas primeiras impressões...
Espero que tudo continue bem. 
E vocês meus queridos continuem na torcida e em orações por mim.
Amo vocês.

#IBCC #CancerTemCura #CancerComLeveza #Quimioterapia #UmaMenos


foto: wikipedia / adriana mani

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Um pouco de aprendizado

aprendizado
substantivo masculino
  1. 1.
    ato, processo ou efeito de aprender; aprendizagem.

    "o a. da língua materna"
    • duração desse processo; aprendizagem.
  2. 2.
    por extensão
    experiência inicial do que se aprendeu; prática, experiência, aprendizagem.


Hoje farei a minha primeira quimioterapia. Estou apreensiva, um pouco nervosa e morrendo de medo mas, como já disse anteriormente, o medo me impulsiona. Essa foi uma das minhas grandes descobertas desde o começo dessa minha jornada. E essa é apenas mais uma das "etapas do medo". Assim como outros medos passaram, esse também vai passar. 

Quando descobri que estava com câncer eu contei para todos que eu conheço (ao mesmo tempo). E já na primeira postagem que fiz, "estou com câncer, e agora?", eu dizia sobre as coisas que eu estava aprendendo. Quatro meses se passaram e a minha lista de aprendizado cresceu muito. Posso até dizer que algumas coisas que eu achava que tinha aprendido já foram repensadas. Provavelmente até o final dessa minha caminhada já vou ter revisto muitas outras coisas. Mas até aqui, posso garantir a todos vocês que aprendi mais nesses últimos 5 meses do que nos 46 anos anteriores da minha vida. E descobri o quanto é bom entender coisas que estavam empacadas, descobrir porque você toma determinadas atitudes e onde elas podem te levar, encontrar as respostas que você tanto buscava e perceber qual o seu real valor para as pessoas (e principalmente para si mesmo). Isso é libertador.

Hoje vou fazer uma daquelas listinhas (e eu adoro fazer listas) das coisas que eu tenho aprendido e que talvez possam ajudar aqueles que estão vindo atrás de mim. Aliás esse é um desejo imenso desse meu coração: AJUDAR! Eu realmente não desejo a nenhum ser vivente nesse mundo que passe pelas angústias que passei (e estou passando) nesse pedaço da minha vida, então se eu puder ajudar a aliviar ou melhorar de alguma forma o caminho de quem está começando a trilhar essa estrada chamada câncer, a minha experiência não estará sendo inútil.

Então, vamos lá...

Coisas que aprendi nos 5 meses desde que descobri um nódulo no meu peito:

1 - Me importar com coisas completamente diferentes do que imaginava (e do que as pessoas imaginam que eu me importo). No meu caso por exemplo: sofri horrores na fase do estadiamento (fase de exames para descobrir a extensão e gravidade da doença). Muito mais que ter perdido meu seio esquerdo ou a possibilidade de perder meus cabelos com a quimio. As pessoas imaginam que você vai desabar por perder o seio ou cabelos - é claro que isso é totalmente diferente para cada pessoa - mas estamos falando aqui da minha lista. Na verdade quando sai da cirurgia eu estava tão aliviada (por não estar mais abrigando um tumor no meu peito) e feliz com as primeiras notícias que recebi que não consegui sequer ficar triste num primeiro momento. Isso veio depois. Fiquei um pouco deprimida depois que tirei as ataduras e quando algumas amigas choraram ao falar comigo. Mas isso passou rápido e a cada boa notícia que fui recebendo a mastectomia foi perdendo lugar, mesmo porque essa situação é temporária;

2 - Que vai Passar! Essa é a frase que mais ouço das novas "amigas de peito" e que mais leio nos blogs sobre o assunto. E a cada etapa vencida a gente vai compreendendo isso. Porque essa situação é realmente temporária (de qualquer forma um dia acaba). O tumor não vai ficar no seu corpo, a recuperação da cirurgia e o tratamento não vão durar para sempre. Então, é respirar, se armar de coragem e entender, definitivamente, aquela expressão: "força na peruca e vamos em frente.". Descobri que é sim possível ser a pessoa mais corajosa desse mundo quando se está sentindo o maior medo da sua vida;

3 - Blindar os ouvidos! Prepare-se para ouvir as coisas mais absurdas sobre câncer e principalmente sobre o tratamento. A gente vai ficando cada vez mais entendida sobre o tipo de câncer que temos e o tratamento que estamos recebendo. No final disso tudo acho que já estarei PhD em "carcinona ductal invasivo grau II - sem comprometimento de linfonodos - positivo para estrógeno e progesterona, tamanho entre 2 e 5 cm em paciente com idade superior à 35 anos, etc, etc...". Porque é assim que o seu tumor será tratado. Cada um deles é único no Universo (sem exageros aqui, porque todas as especificações microscópicas do tumor serão combinadas com as especificações microscópicas do seu organismo, heranças genéticas, etc, etc...), portanto ele vai ser tratado de forma exclusiva. Então esqueça todos os conselhos, dicas, e absurdos que vai ouvir durante o seu tratamento. Não é porque a tia da amiga morreu depois de fazer químio que você também vai morrer na sua primeira químio. (assim espero!);

4 - Não acreditar em curas milagrosas. Vão te apresentar as curas mais espetaculares do mundo e se você tentar seguir todas é bem provável que morra de intoxicação em vez de morrer de câncer. Se graviola e pitaya curassem câncer, não existiria mais ninguém doente nesse mundo. Uma coisa é você procurar apoio de um nutricionista especializado e ter uma alimentação natural, baseada no seu histórico médico para te ajudar a se livrar do câncer. Porque SIM (e isso não é nenhum segredo) alimentos processados, artificiais e cheios das mais diversas porcarias industrializadas fazem muito mal à saúde, todo mundo já tá cansado de saber. Então procurar se alimentar de forma correta para o seu organismo se recuperar e te ajudar a se livrar do câncer é uma escolha inteligente. Isso não significa abandonar os tratamentos tradicionais que, comprovadamente, podem te curar. Estudos foram feitos e há anos são testados, confirmados e já salvaram muitas vidas. É esse o caminho que escolhi: me alimentar de forma saudável e seguir o protocolo médico à risca. Os resultados nos meus exames não deixam dúvidas que fiz a melhor escolha;

5 - Aceitar as mudança nas relações! Algumas pessoas que você ama nem sempre vão te acolher. Talvez sejam as primeiras a sair correndo, morrendo de medo da doença. Mas ao longo do caminho você começa a entender - finalmente - que as pessoas são diferentes, que reagem de formas diferentes aos acontecimentos e que isso (talvez) não signifique que não te amem. Ao contrário disso também vai descobrir que tinha verdadeiros anjos vivendo ao seu lado, pessoas que serão capazes de te carregar no colo e que enfrentariam tudo no seu lugar se pudessem. Algumas coisas vão ficar bem claras para você: aquelas amizades que aparentemente eram firmes e cheias de significado vão se mostrar que na realidade eram bem frágeis. Amigos que você nem botava muita fé vão se revelar pessoas que realmente te amam e que ajudarão muito você. Prepare-se para descobrir as sombras de alguns e as suas próprias. Pode ser que não te poupem e te digam coisas realmente dolorosas no seu momento de maior fragilidade e essa bofetada na cara vai te fazer acordar pra valer. Vai te fazer enxergar em você (e nas pessoas) algo que você nunca tinha visto antes. Isso vai, definitivamente, te fazer entender o quanto você é forte e que precisa encarar as coisas de frente, sem melindres e sem dependência emocional;

5 - Rever todas as suas atitudes, pensamentos, conceitos e preconceitos. Minha terapeuta outro dia falou que eu dei um salto gigantesco no meu autoconhecimento. Consegui evoluir mais em 5 meses do que em 4 anos de terapia. Isso porque você vai descobrindo quem você é, qual o teu significado para as pessoas e vai conhecer muita gente passando por problemas (menores ou muito maiores) que os seus e isso te coloca em xeque. Vai entendendo que a vida não é do jeitinho florido que a gente sempre imaginou e que isso não tem problema nenhum. Que você fazia a maior tempestade em um copo d`água: "Ai, meu cabelo não fica como eu quero, que droga!". Pois bem, você vai ficar careca e o problema do cabelo tá resolvido. Você começa a dar importância ao que realmente importa;

6 - Ser mais atenta e cautelosa. O seu médico, por mais maravilhoso que ele seja, não vai te dizer tudo o que você precisa saber. Então você vai ter que perguntar, pesquisar, buscar outras informações, checar tudo e tirar dúvidas com o seu médico o tempo todo. Não vai poder, por exemplo, tomar aquele chazinho que te indicaram, sem antes perguntar ao médico se não vai interferir no tratamento. É a sua saúde e é você quem vai ter que correr atrás de tudo o que precisa saber para depois perguntar ao médico o que procede e o que não procede. Porque ele tem zilhões de outros pacientes e não vai se lembrar de te informar e avisar de todos os detalhes (que são milhares). No IBCC você recebe um guia informativo e isso ajuda muito, mas mesmo assim tem muito mais coisas que não estão no guia que podem de ajudar (ou te prejudicar) e é preciso estar atento aos detalhes para não perder nada na consulta;

7 - Não se comparar! Como já disse antes cada pessoa é única, cada tumor é único, cada organismo reage de um jeito. Não tem como comparar as reações e as evoluções do tratamento. Isso é algo que estou levando para a vida. Não dá para se basear em nada, nesse assunto. Não dá pra medir a sua vida com a de ninguém. Eu já tinha uma boa base disso e essa não foi uma lição difícil. Não gosto de me comparar e ser comparada, mas isso ficou ainda mais claro pra mim. Eu preciso me concentrar em mim, nas minhas necessidades e naquilo que vai funcionar pra mim para não perder o foco;

8 - O tratamento do câncer é uma jornada solitária. Isso não significa que você é alguém abandonado à própria sorte. Por mais que você tenha todo apoio e amor do mundo, uma coisa que ficou bem evidente pra mim é que precisamos aprender a enfrentar nossos medos e não ser alguém emocionalmente dependente. Atrelar a felicidade, saúde, conquistas e existência à vida de outra pessoa é um erro grave. Mesmo que você tenha alguém te que ame muito, que esteja ao seu lado em todos os momentos, na hora H ninguém vai poder tomar o seu lugar. Você vai ter que entrar sozinha na sala de exames, na sala de cirurgia e é a sua veia que será puncionada para receber a medicação. Ninguém no mundo vai poder fazer isso por você. Eu tinha traumas de infância, muitos ressentimentos e uma dependência emocional filha-da-mãe, que não se curava nunca. Estava sempre dependendo da aprovação de alguém ou de alguma outra coisa para me sentir feliz (mesmo tendo uma vida maravilhosa com a família que construí). Essa experiência tem me feito amadurecer e estar mais consciente das minhas responsabilidades. As minhas sessões na terapia estão cada vez mais rápidas;

9 - Câncer de mama não acontece só em outubro e nem só na casa dos outros. Eu tinha a arrogância de achar, mesmo tendo muitos casos na família, que eu estava imune. Que jamais teria um câncer afinal achava que me alimentava bem (só porque não tomava mais refrigerantes e tinha cortado frituras), que fazia exercícios (mesmo tendo longos períodos de sedentarismo), que fazia meus exames regularmente (sem saber que determinados tumores não aparecem na mamografia). Aliás, muita gente acha que mamografia é PREVENTIVO de câncer. Sinto dizer, mas não é! Mamografia serve apenas para um diagnóstico precoce (aliada ao ultrassom) que poderá aumentar as chances de cura e só! Fazer exames regularmente não vai te impedir de desenvolver um câncer, mas cuidar da alimentação, praticar exercícios, viver sem estresse e ansiedade e tomar muita água serão bem mais eficientes na prevenção. Eu tinha a presunção de achar que estava me garantindo, quando na verdade uma série de muitos, muitos mesmo, outros fatores são determinantes para o surgimento da doença.


10 - Câncer tem cura ou pode ser tratável. A gente tem uma ideia muito errada sobre a doença. Eu me incluía nessa lista. Até 2014, quando passei por uma cirurgia para retirada de glândulas mamárias nas axilas, achava que câncer era uma sentença de morte. Nessa época comecei a me inteirar sobre o assunto, estava morrendo de medo daqueles caroços nas minhas axilas serem malignos (não eram). Foi então que comecei a me familiarizar com o assunto, mas logo depois da cirurgia não pesquisei mais nada até ser diagnosticada em abril de 2018. Só então eu comecei a descobrir termos, tratamentos, fatores que facilitam ou são obstáculos para o tratamento e a cura. Conheci pessoas incríveis que estão há muitos anos em tratamento, com metástases no corpo inteiro,  e vivem muito bem (apesar das limitações). Conheci pessoas que se curaram completamente de diagnósticos terríveis e nunca mais tiveram nada. Ouvi histórias de pessoas com tumores iniciais, sem metástases e curáveis, que sucumbiram à doença. Estou tendo contato com pessoas que passaram por situações realmente terríveis e passaram por tudo com bom ânimo, coragem e determinação, pessoas que hoje me inspiram e me indicam a direção, são pessoas maravilhosas que resistem bravamente e não desistem. E a cada dia que passa tenho mais confiança na minha cura. 

Eu ainda tenho muito o que aprender nessa caminhada. Cinco meses se passaram, desde aquela sexta (16/03/18) em que passei a mão pelo seio esquerdo e senti um caroço do tamanho de uma uva. Tenho agora mais cinco meses de tratamento com a químio pela frente. E por mais difícil que esses próximos meses sejam, eles vão passar como os primeiros passaram.

Daqui a pouco vou para o hospital enfrentar a primeira dose do meu abençoado remédio. A primeira da minha cura definitiva. Eu não tenho mais câncer e se por acaso alguma célulazinha esperta tiver escapado, hoje a gente acaba com ela! Eu não tenho dúvidas de que estou curada, mas não vou deixar de fazer absolutamente nada para garantir isso. Espero que eu tenha "estudado" bastante para a "prova" de hoje. Depois eu venho aqui contar que nota eu tirei.

Orem por mim;
Vibrem por mim;
Torçam por mim.

Um beijo carinhoso à todos.

foto: site Senai


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Preparada e armada!

Depois do resultado da biópsia, que muito me deixou feliz, recebi na última terça o protocolo do meu tratamento. Mesmo tendo tido um resultado maravilhoso no exame a minha oncologista optou por fazermos uma químio adjacente (preventiva), por conta do meu histórico familiar. Eu já esperava por isso, pois existem muitos casos de câncer na minha família, e confesso que me senti bem mais segura sabendo que estou diminuindo ainda mais as chances de uma recidiva da doença. 

É claro que ter que passar por uma quimioterapia deixa qualquer um apreensivo e com um pouco de medo, algumas pessoas não te poupam de te contar histórias terríveis envolvendo quimioterapia, mas eu prefiro enfrentar logo tudo de uma vez. Melhor do que ficar feliz agora e ter que lidar com más notícias no futuro. Já que estou passando por isso agora é melhor ir até o fim e ter certeza de que estou fazendo tudo certo. 

A minha situação é bem tranquila, se comparada com outros casos, de pessoas que conheci recentemente e até de amigos que já passaram por isso. Eu já estou completamente livre do câncer. A quimioterapia que farei é apenas como prevenção. Serão 5 meses de tratamento, com a químio branca (considerada menos cruel que a vermelha) em uma dosagem até bem leve: duas medicações serão aplicadas por 1 hora cada. Considerando que há casos em que a pessoa fica até 8 horas sob infusão da medicação, acho que mais uma vez fui muito abençoada. É bem provável que tenha efeitos colaterais bem chatos (como queda de cabelos,  dores, e enjoos), mas acredito que por ser uma dosagem menor eu consiga enfrentar tudo de forma mais branda. A quantidade de medicação associada (acima) assusta um pouco, mas boa parte é apenas para assepsia e outra parte caso haja necessidade. É melhor estar preparada e não precisar do que precisar e não ter a medicação à mão.

Também estou preparando um novo plano alimentar com o objetivo de minimizar os efeitos colaterais e de acelerar a minha produção imunológica. Estou lendo muito sobre o assunto, pesquisando sobre como proceder para passar por tudo da melhor maneira possível. Depois eu venho contar para vocês como foi, se meus planos deram certo e como vou reagir.

Confesso que estou com mais medo dos efeitos emocionais (de ficar deprimida ou ter crises de ansiedade - que são possíveis efeitos da droga) do que dos enjoos, dores ou disfunções intestinais. Enfim, no dia 29/08/2018 às 13 horas estarei recebendo a primeira dose do meu abençoado defensor. E vou fazer como fazia quando era criança e minha avó passava Merthiolate (que ardia pacas) em algum machucado. Eu simplesmente fechava os olhos e pensava: "Isso não vai durar para sempre e quanto mais arder mais vai me curar!". 

Espero que eu seja uma daquelas pessoas que passam ilesas por uma quimioterapia, mas também estou me preparando para enfrentar com coragem tudo o que vier. Se arder e queimar (como li em muitos relatos) vou estar de olhos fechados pensando: "isso não vai durar para sempre e se tá ardendo é porque está me curando e me protegendo!".

Um beijo carinhoso a todos que me seguem aqui e não esqueçam:

Orem por mim, 
Vibrem por mim,
Torçam por mim e me desejem boa sorte.

#IBCC #QuimioComLeveza #Eu
EstouCurada

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Diagnóstico: LIVRE!



Ainda tenho uma boa caminhada pela frente: serão cinco anos de acompanhamento e tratamentos preventivos. Ainda existe um risco pequeno de recidiva, mas HOJE, nesse exato instante, estou livre do câncer.

Hoje foi o meu retorno pós cirurgia e peguei o resultado da biópsia do tumor, dos tecidos e linfonodos. E as notícias não podiam ser melhores.

Nem tenho palavras para dizer o quanto é emocionante abrir o resultado de um exame e ler em todos os campos:
1 - Linfonodos sentinelas: negativos para neoplasias metastásicas;
2 - Focalidade do Tumor: foco único;
3 - Extensão do tumor: pele: livre de células cancerígenas / papilas: livres de células cancerígenas / margens do tumor: livres de células cancerígenas (não existiam células cancerígenas nem nas membranas que recobriam o tumor e isso é incrível).
4 - Margens cirúrgicas: livres de neoplasias.

E assim sucessivamente em todos os campos preenchidos: ausentes, livres, negativos para células cancerígenas. A cirurgia foi um sucesso em todos os sentidos.

É então que você realmente compreende quando as pessoas dizem: "eu nasci de novo". Eu não renunciarei, claro, a minha data de nascimento: 16 de fevereiro. Mas, esse 16 de agosto será sempre um dia muito especial para mim. Os médicos não vão me dizer isso antes de terminar todo o protocolo adjacente e o controle preventivo, mas sim EU ESTOU CURADA! Me sinto curada, os exames me dizem que estou curada e eu acredito fielmente nisso.

E agora é mais um tempo de gratidão. Quero agradecer de todo o meu coração a todos do IBCC, desde a maravilhosa equipe médica até aos mais simples funcionários e voluntários - vocês moram em meu coração eternamente. Muita gratidão, por tudo o que vocês têm feito por mim. Também agradeço a todos que de alguma forma intercederam por mim com orações, vibrações, pensamentos positivos, palavras de incentivo, e encorajamento - suas orações me fizeram mais forte e nossas preces foram todas atendidas. Aos queridos, em especial a minha filha, que estiveram e estão comigo nessa caminhada - vocês foram muito mais que importantes na minha sustentação. Aos queridos familiares e amigos que estiveram aqui me visitando, me apoiando na cirurgia, cuidando do meu filho, do meu amado, da minha casa e de mim - toda minha eterna gratidão. Um agradecimento mais que especial ao Diego, meu marido maravilhoso, meu ombro amigo, meu anjo, meu tudo - a pessoa que está comigo em cada instante dessa jornada, que sacrificou as suas férias para cuidar de mim, que deixou tudo: trabalho, afazeres, diversão, amigos e até familiares para estar completamente ao meu lado junto com meu Tomás - que é sempre a força que me move, a razão pela qual eu acordo todos os dias e me visto de coragem para lutar. Esse pequeno anjo está ao meu lado o tempo todo me encorajando, me dizendo coisas inacreditáveis para uma criança tão pequena. Eu não podia ter melhor sorte nessa vida, eu os amo mais que tudo nesse mundo: OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADA! Preciso também agradecer pelas dicas e apoio que recebi da minha nutricionista, Suzane, pois essa vitória devo principalmente a tudo que o meu corpo conseguiu reagir depois que mudei minha alimentação. E a todos anjos que me ajudam de infinitas formas todos os dias e todos vocês sabem quem são, não esqueço nenhum de vocês... um dia espero recompensá-los todos!

Agradeço infinitamente e sobretudo à Deus, à vida, ao Universo, à natureza e essa força ou energia imensa que faz com que tudo que se move exista. Toda gratidão que houver nessa vida!

Agora a caminhada ficou muito mais leve. Terça-feira passo no oncologista pra definir quais serão os tratamentos adjacentes e preventivos, mas tudo o que vier será feito com muito mais leveza e confiança.






#IBCC #gratidão #EstouCurada

terça-feira, 31 de julho de 2018

Recomeço

Hoje faz oito dias desde a minha mastectomia. E para quem está curioso sobre a minha atual condição, é exatamente essa ai ao lado. A minha imagem está, talvez, ainda não tão bonita e limpa quanto essa. Ainda estou com os pontos e a minha cicatriz parece ser bem maior que essa. Estou ainda com os hematomas do dreno e de toda manipulação cirúrgica. Minha imagem no espelho é bem agressiva. O câncer é uma doença extremamente agressiva. Pensando que iria ficar muito deprimida depois da cirurgia, cheguei a desencorajar visitas, achei que iria precisar de um tempo maior até que pudesse falar sobre isso e de como me sinto depois de ter tido o meu seio esquerdo arrancado do meu corpo. Sim, ele foi literalmente arrancado, as marcas no meu corpo me dizem o que os médicos confirmaram depois: "sua mama saiu fácil, não precisamos raspar muito e nem forçar demais para que saísse, os hematomas que vão aparecer são normais, pois é um procedimento muito agressivo...".

Dizendo dessa forma tudo parece muito pior do que realmente foi. É a realidade, foi exatamente isso que aconteceu, mas por mais que pareça algo devastador, a mastectomia não foi, nem de longe, a pior parte dessa história que há alguns meses estou contando aqui para vocês. Para mim, a fase do estadiamento (exames para saber a extensão e gravidade da doença) foi a mais cruel de todas. Eu quero falar melhor sobre isso em outra ocasião. A cirurgia, em si, foi o começo das minhas alegrias.

A cirurgia estava marcada para as 07:00 do dia 24/07/2018. Saí de casa às 03:30, estava ansiosa para ir logo. Tinha arrumado minhas coisas na noite anterior e estava aflita para ir, mas quando olhei o meu filho dormindo na caminha dele, senti um nó na garganta. Beijei-o e disse baixinho em seu ouvido: "eu te amo muito meu amorzinho e eu volto logo pra você". Quando me ouvi dizendo isso, tive um medo avassalador de não voltar e sai chorando do quarto. Me despedi de todos e fui. Chegamos ao IBCC às cinco. Tudo transcorreu bem, estava bem cansada, pois não tinha conseguido dormir. O hospital é de uma organização e preparo impressionantes. Fiquei positivamente impactada com isso. Todos os profissionais, sem exceção, extremamente treinados e incrivelmente preparados para nos acolher. Chegamos, nos registramos e subimos para o centro cirúrgico. Diego entrou comigo na sala pré operatória, recebemos as instruções do enfermeiro (lamento não lembrar seu nome para agradecê-lo). Assim que me troquei, ele veio e me pediu para tirar a aliança, me despedir do Diego e acompanhá-lo. Esse foi, talvez, o momento mais solitário que passei em toda minha vida. Durou alguns segundos, mas naquele instante eu estava me despindo, literalmente, de tudo. Não apenas da minha roupa, brincos e acessórios, mas a minha emoção estava nua também, chorei. Quando entreguei minha aliança e me despedi do Diego eu sabia que daquele momento em diante estava completamente só para enfrentar tudo. 

A equipe de enfermagem que me recebeu foi extremamente carinhosa e senti que todos estavam empenhados em criar uma atmosfera de cumplicidade. Aos poucos fui me sentindo acolhida, relaxando e me acalmando. Quando a equipe médica chegou eu já estava completamente adaptada àquela situação. Dra. Vívian checou meus sinais e às 07:00  em ponto me levaram para a sala. Lá dentro além das enfermeiras muito carinhosas, preparando a sala estavam a Dra. Vívian anotando meus dados numa tela gigante, Dra. Renata checando meus exames todos e colocando num outro quadro de luz os exames de imagens e Dra. Camila, anestesista, que falou comigo e explicou como seria o precedimento anestésico. Então o Dr. Andrade chegou e enquanto marcava meu corpo falou comigo durante mais de dez minutos. Explicou mais uma vez o que seria feito e eu perguntei para ele se existia a possibilidade de não ter que tirar a mama toda. Ele parou o que estava fazendo, segurou a minha mão e falou: "Não, Adriana, não tem essa possibilidade!". Então ele mostrou no meu seio o local do tumor, me mostrou o tamanho dele - cerca de 2 cm e disse: "aqui está o seu tumor, bem no centro do seio, atrás do mamilo. O seu seio é bem pequeno querida (sim ele falou paternalmente comigo), eu preciso de uma margem de segurança de mais 2 cm em torno do tumor.". Então ele circulou os 2 cm em torno do tumor e isso abrangia todo o meu peito. Eu entendi o que ele queria dizer e aceitei finalmente o meu destino. E ele continuou: "você é jovem, tem uma pele flexível vamos conseguir reconstruir tudo no final do seu tratamento, eu me comprometo com você, mas hoje eu só quero te entregar saudável à sua família e o mais próximo da cura possível quando eu terminar. Confie em mim, confie em você e pense apenas na sua saúde agora".  E então ele me perguntou se ele podia iniciar. Eu disse que sim, então ele autorizou a anestesia. Olhei uma vez mais o relógio e estava marcando 07:25.

A cirurgia durou cerca de 4 horas. Quando abri os olhos já na sala de recuperação o relógio marcava 12:45. A Dra. Camila estava ao meu lado. Me perguntou se eu estava bem e já foi falando entusiasmada: "sua cirurgia correu muito bem, nenhuma intercorrência, tudo dentro do normal e previsto e eu tenho uma ótima notícia para te dar: nós retiramos 3 linfonodos e os 3 deram negativos - livres de macrometástases. O Dr. Andrade vai falar com você depois e explicar tudo, mas ao que tudo indica, clinicamente falando, você já está livre do câncer". Eu fiquei mais uns 15 minutos em observação, em seguida a enfermeira veio e disse: "já chamamos o Diego e vamos te levar para o quarto agora". Já no quarto eu nem me lembrava mais de quantos linfonodos haviam sido retirados, mas sabia que não tinha tido um esvaziamento axilar, o que já era uma grande notícia. A enfermeira Aninha, me recebeu com todo carinho e atenção. Eu estava tão bem e feliz que nem lembrei que já estava sem o meu seio esquerdo. Passei o resto do dia dormindo, acordando, recebendo o carinho do Diego e feliz por ter recebido tão boas notícias. À noite eu já consegui dar notícias eu mesma aos meus queridos, postando essa foto: 

No dia seguinte, logo de manhã recebi alta e então menos sonolenta consegui entender todas as informações que os médicos me passaram. O nódulo estava bem delimitado, sem ramificações e os três linfonodos livres. Agora estamos aguardando o resultado da biópsia dos tecidos e do tumor pra o próximo dia 16/08, quando eu serei encaminhada  ao oncologista, que vai definir os próximos passos do tratamento. Mas, segundo o Dr. Andrade existe a possibilidade de ser um tratamento bem mais tranquilo que estava imaginando, talvez nem precise que químio ou rádioterapias. Eu tenho certeza absoluta que a alimentação que adotei, desde o instante que descobri o nódulo e o acompanhamento nutricional que estou tendo, fez toda a diferença, mas esse também é um assunto que quero falar, exclusivamente, em outras postagens.

Eu só fui conseguir ficar sozinha e me olhar inteira no espelho ontem, depois que tirei os curativos e dreno no hospital. Não é algo fácil, não é nada bonito o que eu vi. Chorei por alguns minutos, mas não senti pena de mim mesma. Não me senti injustiçada pela vida ou algo assim. Senti um vazio, senti uma certa tristeza por ter tido que chegar ao limite, mas em seguida fui invadida por um sentimento profundo de gratidão. Estar aqui viva, praticamente livre do câncer, recebendo notícias que eu só esperava ouvir daqui alguns anos e ter sido tratada com tanto cuidado e carinho pela equipe médica, pela enfermagem e pelos meus queridos que estão aqui cuidando de mim, é libertador. 

Quando eu disse que estava vivendo um divisor de águas, no post anterior, eu sabia que minha vida iria mudar, mas não imaginava que fosse tanto. Eu já me sinto uma pessoa mais feliz, mais amada, mais livre e abençoada. Estar, ainda que precariamente, cuidando do meu filho, podendo abraçá-lo, me recuperando tão rápido e saber que não há mais um câncer crescendo no meu peito, é uma dádiva. Quando o meu marido me devolveu a aliança e segurou a minha mão, com o mesmo amor com que a segurou pela primeira vez. Quando ele se recusou a sair do banheiro  - quando fui ver a minha cicatriz a primeira vez - e disse que queria estar comigo naquele momento. Quando eu vi em seu olhar que nada havia mudado entre nós, eu soube, eu tive a plena certeza de que a minha vida mudou sim, mas que agora será muito melhor.



Toda gratidão que houver nessa vida, por tudo que estou vivendo, por esse momento incrível de libertação, de saúde, de recomeço, de reconstrução... OBRIGADA!


Fotos: gettyimages e Adriana Mani

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Divisor de Águas

Eu sempre ouvia as pessoas dizendo que determinadas situações haviam sido um "divisor de águas" em suas vidas e ficava imaginando se algum dia eu passaria por uma transformação dessas. Quando fui mãe pela primeira vez, achei que havia atravessado um momento desses. É claro que foi uma mudança imensa na minha vida, mas nem mesmo a maternidade promoveu em mim um enfrentamento tão definitivo quanto o que estou vivendo hoje.


Hoje é o último dia que estou vivendo como a Adriana que todos conheceram e que chegou até aqui. Essa pessoa que nasceu, viveu por 46 anos de uma determinada maneira e chegou até esse momento, não vai mais existir a partir de amanhã. É o meu último dia inteira e meu último dia com câncer. Nos últimos três meses eu vivi um turbilhão de emoções. Eu chacoalhei a minha vida, a minha essência, eu revirei o meu baú e decidi jogar muita coisa fora, talvez eu jogue hoje até mesmo o baú. Esses últimos três meses foram o meu período de transição e hoje é o meu dia D. É o meu imaginado, até então, "divisor de águas". Amanhã, quando acordar da minha cirurgia, essa pessoa de agora não vai mais existir. 

Estou indo enfrentar uma das piores situações e medos de toda a minha vida até aqui, mas eu sei exatamente quem está indo comigo - mesmo que esteja à quilômetros de distância física de mim. Eu sei exatamente quem fez o impossível e saiu do Mato Grosso para estar aqui, eu sei quem ficou em Goiânia preocupado comigo, quem largou todos os seus afazeres e a sua vida lá no Paraná para estar aqui. Quem não pode estar aqui fisicamente, mas mesmo à milhares de quilômetros, está aqui juntinho comigo. Eu sei quem está comigo mesmo com o Oceano Atlântico imenso entre nós. Eu sei quem tá do outro lado do mundo fisicamente, lá em cima no Canadá, na Suíça, na Grécia, nos EUA, na Holanda, na França, na Itália, no Pará, no Paraguai ou espalhados pelo Brasil,  mas estão aqui comigo nesse exato instante. Eu sei quem é que tá lá na Bahia, desesperada para chegar aqui e poder me abraçar quando puder... Assim como eu sei exatamente quem me abandonou no meio do caminho. Quem está aqui ao lado, que poderia ter vindo ficar comigo nas horas mais difíceis que eu passei e não veio. Quem entra toda hora na internet, curte um milhão de coisas e não perde dois minutinhos e me pergunta como eu estou, há meses. Quem falava comigo todo santo dia e hoje não me procura mais. 

Quando você recebe um diagnóstico de uma doença grave, por mais difícil que isso seja, você também recebe uma das mais incríveis oportunidades na vida. A oportunidade de reflexão. Seja qual for o resultado final, você tem esse tempo para poder revirar o seu baú, rever as suas prioridades, fazer um balanço da sua vida e fazer todas as mudanças necessárias e isso é uma dádiva. Nem todo mundo tem esse tempo ou chance de fazer isso. De mudar o que precisa ser mudado, de rever o que precisa ser revisto e, no meu caso, a sorte de poder reverter a situação toda.

Amanhã quando eu acordar da anestesia será outra pessoa que terá acordado. Eu não sei ainda como será acordar sem uma das partes que mais me davam orgulho na vida. Eu nunca imaginei que um dia pudesse ter, ao mesmo tempo, sentimentos tão contraditórios: uma felicidade imensa por estar me livrando definitivamente do câncer e uma tristeza tão profunda por ter que ser mutilada. Amanhã eu não terei mais o orgulho de ter seios lindos e perfeitos, mas amanhã não terei mais câncer. É claro que ainda terei que passar (como forma de erradicação e prevenção) por quimioterapias, radioterapias e tomar hormônios por pelo menos cinco anos antes do médico me dizer que estou curada, mas o câncer, o tumor que me causou tanto medo e preocupação, não vai estar mais dentro do meu corpo.

Acho que jamais poderei agradecer como gostaria a todos aqueles que me suportaram até aqui. Que leram os meus textões, ouviram meus desabafos, não se irritaram com as minhas lágrimas, que me deram as broncas que eu precisava, quem de alguma forma aliviou o que eu estava sentindo e não se cansou de mim. Nem eu me suportei em alguns momentos. Eu sei que vou superar isso tudo, que vou me refazer, reconstruir, reerguer e vou conseguir isso porque tenho, aqui ou espalhadas pelo mundo todo, pessoas que realmente se importam comigo. E quando eu voltar para casa eu terei deixado lá junto desse tumor todas as minhas mágoas, ressentimentos, dores ou tristezas desnecessárias. 

Esse é o meu divisor de águas! O momento em que estou abandonando todos os pesos, os traumas, orgulhos, vaidades, futilidades e coisas que atrapalharam a minha jornada até aqui. Eu tenho refletido muito sobre as causas, os aprendizados e conhecimentos que essa enfermidade me trouxe. E acho que a maior descoberta de todas elas foi o quanto eu mesma tenho me ferido, machucado e maltratado nesses anos todos. Eu precisei de um laudo médico nas minhas mãos, eu precisei da materialização disso tudo para finalmente enxergar que a pessoa que mais me machuca sou eu mesma. Pois sou eu quem permitiu tudo o que vivenciei até esse presente momento. Fui eu quem aceitou relacionamentos tóxicos, quem se deixou ser psicológica e fisicamente  abusada, quem aceitou migalhas afetivas, quem mendigou afeto de quem não tinha para me dar. Fui eu quem deixou me esperando esse tempo todo -  pessoas que realmente me amam e se importam comigo - enquanto eu ficava chorando por um único afeto não correspondido. Fui eu que não aceitei a minha condição e não segui a minha vida, fui eu que não esqueci, que não perdoei pra valer e que não me permiti a ser feliz ao lado daqueles que realmente me querem ao lado deles. O maior aprendizado e a maior mudança de toda a minha vida será essa: eu não mais deixarei quem me ama esperando por mim enquanto sofro por afetos não correspondidos. Eu vou continuar amando pessoas que não me amam, porque não tem como se renunciar o amor. Mas eu descobri que antes de tudo vou precisar aprender a me amar, me perdoar, me aceitar e principalmente aprender a ser feliz. Eu preciso e mereço ser feliz.

Minha cirurgia será amanhã cedinho, às 7h!

Orem por mim!
Vibrem por mim!
Torçam por mim!


foto: pinterest